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Heráclito, Zoroastrismo e o Cristianismo primitivo: uma análise dos fundamentos do culto à R’hllor e sobre sua ascensão em Westeros

”No princípio, haviam dois espíritos primitivos, Gêmeos espontaneamente ativos, Estes são o Bem e o Mal, em pensamento, em palavra e em ação.” – Ahunuvaiti Gatha; Yasna 30.3, um dos hinos atribuídos à Zoroastro. 

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  • Introdução

Das inúmeras e diversificadas religiões presentes no universo da saga, que vão desde a veneração animista e panteísta, com influências dos antigos cultos pagãos célticos e germânicos, aos Deuses Antigos, adorados pelos primevos Filhos da Floresta e depois adotados pelos Primeiros Homens, a com fortes aspectos católicos e medievais Fé dos Sete e a crença dos homens de ferro no Deus Afogado, com influências da mitologia nórdica, até as arcaicas e xamanistas religiões dos dothraki e lhazarenos, provavelmente a mais elaborada,  construída e fundamentada, com uma liturgia e teologia bastante difinidas, e onde há mais margem, espaço, para analogias, conexões e comparações históricas reais seja aquela hegêmonica do outro lado do Mar Estreito, em Essos: a fé no Deus Vermelho, o culto à R’hllor, a religião dos sacerdotes vermelhos, pregada por  Thoros de Myr e principalmente por Melisandre de Asshai em Westeros.

Em uma série de fantasia cujo um dos maiores alicerces é a complexidade psicológia e a ambiguidade moral dos personagens é aparentemente estranho e contradório que nesse universo fantástico uma das religiões com mais destaque, e talvez a mais desenvolvida – no sentido de que é detalhada, definida – teologica e litúrgicamente, seja justamente aquela que tem uma visão de mundo em preto e branco, com as pessoas sendo ou completamente boas, com ações positivas, ou completamente más, com ações negativas, porém é exatamente aí que reside a complexidade dessa série, nas inversões, ironias e desconstruções do senso comum e dos paradigmas da fantasia épica e medieval, ao colocar essa complexa – no sentido histórico e filosófico – religião essosi sob destaque nas páginas dos livros da saga, George R.R. Martin opera uma de suas inversões e desconstruções: em um universo onde há linha entre bem e mal é tênue e não exatamente definida, onde os personagens sempre oscilam entre as fronteiras do que acreditam que é certo e o que é errado, transitando entre seus valores e interesses, onde a dubiedade e a ambilavência imperam, uma das maiores formas de religião é a que possui uma perspectiva completamente divergente e oposta a tudo isso.

A seguir, farei uma análise dos fundamentos do culto a R’hllor e de sua recente difusão e atual ascensão em Westeros, que ocorre principalmente através da pretensão ao Trono de Fero de um controverso, porém emblemático e fascinante personagem, baseada em considerações históricas, filosóficas e teológicas que relacionam-se, se conectam, a essa religião estrangeira aos olhos westerosi, desde a visão de mundo e o pensamento dialético de um filósofo da Grécia Antiga e o dualismo cósmico e as doutrinas que constituíram um enorme legado para a posteridade de uma importante religião da Pérsia Aquemênida até os primórdios do Cristianismo e sua ascensão no Império Romano durante a Antiguidade Tardia.

  • O Fogo de Heráclito, Melisandre e a harmônia dos contrários 

‘’A noite é escura e cheia de terrores, o dia, luminoso, belo e cheio de esperança. Uma é negra, o outro, branco. Há gelo e há fogo. Ódio e amor. Amargor e doçura. Macho e fêmea. Dor e prazer. Inverno e verão. Mal e bem. Vida e morte. Em toda parte há opostos. Em toda parte há a guerra. ’’ – Melisandre à Davos,  A Tormenta de Espadas, Davos III, Capítulo 25.

‘’A guerra (polemos) é pai de todas as coisas, rei de tudo; de uns fez deuses, de outros homens; de uns, escravos, de outros, homens livres. ’’
‘’O deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, abundância e fome. Toma várias formas como o fogo, quando misturado a especiarias toma o perfume de cada uma’’ – Fragmentos de Heráclito.     

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Heráclito representado na Escola de Atenas, de Rafael Sanzio (1483-1520).

Heráclito de Eféso foi um filósofo pré-socrático que viveu entre os séculos VI e V a.C., chamado de obscuro e enigmático devido a brevidade e ambiguidade de seus aforismos. Ele via no fogo a fonte, a origem (arché) de todas as coisas e tinha a perspectiva singular e inovadora de um universo em constante devenir, em contínua transformação, cambiante como o curso eterno do fluir de um rio em que não podemos nos banhar duas vezes, pois a cada momento a água muda e nunca somos os mesmos (panta rhei, tudo flui).

‘’Este cosmo, igual para todos, não o fez nenhum dos deuses, nem nenhum dos homens, mas sempre foi, é e sempre será um fogo eternamente vivo, acendendo-se e extinguindo-se conforme a medida. ’’

”O fogo se transforma em todas as coisas e todas as coisas se transformam em fogo, assim como se trocam mercadorias por ouro e ouro por mercadorias”.  

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Heráclito, pintura a óleo de Hendrick ter Brugghen (1588-1629).

Para o filósofo jônico, o mundo era uma eterna luta de contrários (noite, dia, frio, quente, carência, fartura, agudo, grave e etc.) e a guerra, o conflito entre os opostos, era o pai de todas as coisas. Não obstante, para Heráclito, há um Logos, uma razão que tudo ordena, uma lei universal sem que nenhum elemento possa ser considerado superior ao outro, bom ou mau.

”As transformações do fogo: primeiro o mar;  do mar, uma metade terra, a outra, ar incandescente. A terra dilui-se em mar, e esta recebe a sua medida segundo a mesma lei, tal como era antes de se tornar terra.”

”Há só uma coisa sábia: conhecer o pensamento que governa tudo através de tudo.”

”Aqueles que falam com inteligência devem apoiar-se no que é comum a todos, como a cidade (pólis) em suas leis, e mais ainda. Todas as leis humanas nutrem-se de uma única lei divina, que estende seu poder até onde quer, é bastante para todos e tudo, e ainda os ultrapassa.”

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Heráclito, ca. 1630, de Johannes Moreelse (1602-1634)

Ao mesmo tempo em que o universo está em constante mudança, em um fluxo eterno personificado pelo fogo, ele permanece o mesmo, pois se um objeto move-se do ponto A ao ponto B, criando assim uma mudança, a lei subjacente (Logos) continua a mesma, há a unidade na multiplicidade, a harmonia dos opostos.

”Não compreendem como separando-se podem se harmonizar: harmonia de forças contrárias como o arco e a lira.”

”O caminho da espiral sem fim é reto e curvo, é um e o mesmo.”

”O caminho para o alto e para baixo é um e o mesmo.” 

No culto à R’hllor, e com mais enfâse ainda nas frases e asserções de Melisandre de Asshai, percebe-se um discurso semelhante nas formas, mas que contém um partidarismo claro e evidente: se o filósofo efésio enfatiza a harmonia entre os contrários e a vigência de uma lei universal que a tudo rege de forma racional, os fiéis desse culto pregam a primazia, precedência e bondade de R’hllor em contraposição a uma divindade maligna, o Grande Outro, aquele cujo nome não pode ser proferido.

Onde Heráclito vê harmônia e complementaridade, os sacerdotes vermelhos e adeptos da religião essosi vêem um conflito eterno, intrínsico e transcendente onde o bem e a luz devem prevalecer sobre o mal e as trevas.

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Mais ou menos como Platão, com seu apego e fixação pelo Mundo Inteligível, o mundo das ideias, essências e formas, em detrimento do Mundo Sensível, o mundo das aparências, fenômenos e sentidos, Melisandre, os demais sacerdotes vermelhos e os adeptos em geral da emergente religião essosi, encontram no meio do ”tumulto dos contrários” de Heráclito um ideal para se agarrar, um bem distinguível e irrecusável, uma causa, a do Senhor da Luz, do Coração de Fogo, do Deus da Chama e da Sombra – novamente o fogo em destaque, como em Heráclito -, causa cujos reais objetivos ainda nos são desconhecidos.

É nesse partidarismo que busca difundir-se, nessa causa imprescindível, que residem os paralelos e conexões do culto à R’hllor com uma histórica religião da antiga Pérsia: o Zorastrismo.

  •  O Zoroastrismo e seu legado

”…Agora, porém, o Sábio Senhor é quem fala com a língua de seu profeta moribundo: ”Porque Zoroastro Espítama renunciou à Mentira e abraçou a Verdade, o Sábio Senhor agora lhe concede as glórias da vida eterna até o final do tempo infinito, assim como darei esta mesma benção a todos os que seguirem a Verdade.” – Excerto de ”Criação”, romance histórico de Gore Vidal.  

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Faravahar, principal símbolo zoroastrista, representa a união da alma humana com seu criador, Ahura Mazda, a vida eterna.

Provavelmente, o monoteísmo não surgiu nos desertos do Sinai e de Canaã com Moisés e o Exôdo, ele é uma ideia mais antiga, um conceito que remonta aos hinos de Amenófis IV, mais conhecido como Akhenaton – faraó da XVIII dinastia que viveu no séc. XIV a.C. – ao deus solar Aton, que foi adotado como único deus durante seu reinado, onde o politeísmo egípcio, com suas dezenas de centenas de deuses, foi  temporiaramente suprimido. 

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Baixo-relevo retrando o faraó Akhenaton e sua famíllia, incluindo sua esposa Nefertiti, reverenciando Aton, único deus adorado durante seu reinado.

Porém, foi com o surgimento do Zoroastrismo ou Mazdaísmo na antiga Pérsia, há aproximadamente 2.600 anos, que o monoteísmo ganhou força, e segundo alguns historiadores e e teólogos essa milenar religião revelada deixou como grande legado conceitos, ideias e doutrinas que formaram os pilares teológicos e doutrinários de religiões universais e monoteístas como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, que nesse sentido são suas herdeiras. 

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Manuscrito artístico retrando o imperador Dario I em um palácio persa sob o Faravahar.

O historiador britânico-americano Bernard Lewis afirma que o Zoroastrismo foi a primeira religião oficial de um Estado, sendo adotada pelos imperadores da Dinastia Aquemênida, antecipando em mais de oitocentos anos o estabelecimento da aliança Estado/Igreja ocorrido em fins do Império Romano. 

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Zoroastro retratado na Escola de Atenas, de Rafael Sanzio.

Mas quem fundou essa religião? Assim como os fundadores de diversas outras religiões foi uma figura muito obscura, um pensador e profeta da região montanhosa da Média (noroeste do atual Irã) chamado Zoroastro ou Zaratustra, que provavelmente  viveu pouco antes da ascensão do Império Aquemênida (539-331 a.C.), que não por coincidência foi o mesmo período, chamado de Axial Age pelo filósofo alemão Karl Jaspers, em que ocorreu o surgimento ou reforma em simultaneidade de várias outras religiões em outras partes do mundo – com Siddhartha Gautama e Mahavira na Índia, Confúcio e Lao Zi na China e Esdras e Neemias na Judeia -, e que se deu o florescimento da Filosofia no mundo grego com os pré-socráticos e sofistas, incluindo Heráclito -.

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Antigo relevo persa retratando Zoroastro.

Na religião zoroastrista há duas grandes divindades gêmeas que se confrontam: Ahura Mazda ou Ormuzde (Sábio Senhor na linguagem avéstica), o princípio do bem, da verdade e ordem (Asha), e Angra Mainyu ou Ahriman (espírito destrutivo), o princípio do mal, da mentira e desordem (Druj). O antagonismo entre ambos manifesta-se desde a hora da criação. Ormuzde criou um mundo pleno de vida e luz, ao passo que Ahriman criou outro, feito de morte e escuridão.

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Relevo nas ruínas de Persépolis, a capital cerimonial do Império Aquemênida, com o simbólico Faravahar retratado.

Posteriormente Ormuzde criou Gaon, lugar maravilhoso, semeado de rosas e cheio de pássaros com plumas de rubi, Angra Mainyu criou então os insetos nocivos às plantas e aos animais. Na gorda pastagem, obra de Ormuzde, Ahriman fez surgir feras e animais que devoravam a criação útil ao homem. À santidade, Angra Mainyu opôs os maus propósitos e a mentira; a prece,  à dúvida que corrói a fé. Assim, a cada uma das maravilhas que Ormuzde dava aos homens para sua felicidade, Angra Mainyu a combatia por um dom nefasto, e em torno desses dois poderes gravitava uma multidão de espíritos, os quais formavam o exército do bem (Amchaspends, Iazatas, Fravachis) e o exército do mal (Daevas, Drujs, Pairikas ou Peri, Iatus), com o homem tendo o poder de decisão frente os dois deuses.

Os zoroastristas também tinham crenças escatológicas e messiânicas – perdoem o anacronismo do termo -, acreditavam que no futuro haveria uma grande batalha final entre Ormuzde e Ahriman, que em um determinado ciclo de tempo três salvadores sucessivos viriam ao mundo, cada um denominado  Saoshyant (“aquele que trará benefício” na linguagem avéstica) que venceriam as trevas e o mal de Ahriman, então todos os mortos ressuscitariam e seriam julgados, o mundo seria renovado, restaurado, e a humanidade finalmente salva, encerrando o ”tempo da longa dominação”. 

‘‘… Nem sete, nem um, nem cem ou mil. Dois! … A guerra é travada desde o começo dos tempos, e, antes de chegar ao fim, todos os homens devem escolher de que lado se encontram. De um lado está R’hllor, o Senhor da Luz, o Coração de Fogo, o Deus da Chama e da Sombra. Contra ele ergue-se o Grande Outro, cujo nome não pode ser pronunciado, o Senhor das Trevas, a Alma do Gelo, o Deus da Noite e do Terror. A nossa escolha não é entre Baratheon e Lannister, entre Greyjoy e Stark. O que escolhemos é a morte ou a vida. A escuridão ou a luz. ’’ – A Tormenta de Espadas, Davos III, Capítulo 25.  

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Percebe-se então que tanto judeus quanto cristãos e muçulmanos devem ao Zoroastrismo conceitos e doutrinas como o livre arbítrio, o conflito cósmico entre o bem e o mal, a existência de anjos e demônios, crenças escatológicas e soteriológicas como a vinda de um futuro salvador, a última batalha, o Juízo Final, a ressureição dos mortos, a salvação da humanidade e a renovação final do mundo, elementos que em sua maioria também fazem parte das crenças dos adeptos do culto a R’hllor, que também acreditam em um dualismo cósmico no qual o homem tem poder de decisão, em que princípios e forças opostas encarnadas em duas grandes divindades antagônicas confrontam-se.

‘’Todos devemos escolher. Homem ou mulher, jovem ou velho, senhor ou camponês, nossas escolhas são as mesmas. Escolhemos a luz ou escolhemos a escuridão. Escolhemos o bem ou escolhemos o mal. Escolhemos o deus verdadeiro ou o falso… O Senhor da Luz fez o sol, a lua e as estrelas para iluminar o nosso caminho, e nos deu o fogo para manter a noite à distância. Ninguém pode se opor as suas chamas.’’ – Melisandre, A Dança dos Dragões, Jon III, Capítulo 10. Melisandre of Asshai

Outros pontos em comum é que tanto no zoroastrismo quanto no culto a R’hllor o fogo é o principal símbolo da divindade benéfica, o presente que o Senhor da Luz/Sábio Senhor concedeu aos homens, sendo o maior símbolo e elemento litúrgico dos rituais religiosos nos Templos Vermelhos da religião essosi e nos Templos do Fogo da religião persa, onde o fogo ritual é chamado de Atar.

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Jashn-e Sadeh, antigo festival e comemoração zoroastrista celebrado no Irã.

O Zoroastrismo também foi uma grande influência para movimentos e grupos religiosos posteriores, como o gnosticismo e o catarismo. O gnosticismo surgiu no séc. II, na Síria, Egito ou Ásia Menor – os estudiosos ainda debatem sobre a questão de suas origens – era um movimento heterogêneo e diversificado – foi duramente combatido pelos Pais da Igreja, como Tertuliano e Irineu de Lyon, em seus escritos -, mas essencialmente mesclava inúmeras ideias e doutrinas de filosofias distintas, sendo genuínamente um produto do fluxo de ideias e conceitos entre Oriente e Ocidente, durante o auge do Império Romano sob a influência da cultura helenística, como o cristianismo, o judaísmo o politeísmo helenístico – com seus cultos secretos como o Orfismo e os Mistérios de Elêusis – e principalmente o neoplatonismo, todas suas correntes tinham pontos em comum: era uma religião que tinha a busca pela sabedoria (sophia), o conhecimento místico (gnosis) revelador do verdadeiro Deus, como principal meta, e seus adeptos também acreditavam num dualismo que contrapunha duas divindades: o deus verdadeiro, o Deus do bem, do espírito, da alma, do universo imaterial, e o Demiurgo, o deus falso, do mal,  da matéria, do corpo, da  degeneração e corruptibildade.

Já os cátaros (”puros”, do latim Cathari, derivado do grego katharoi), também conhecidos como albigenses, eram uma seita dos sécs. XII e XII no sul da França, eles se opunham radicalmente a centralização e hierarquização da Igreja e ao ócio,  luxo e riqueza do clero e rejeitavam todos os Sacramentos, seus adeptos se autodenominavam como ”Bons Homens” (Bons Hommes) e pregavam o sacerdócio universal, o vegetarianismo, votos de pobreza e o ascetismo, além de também se fundamentarem num dualismo cósmico, acreditando num conflito entre o Deus do Novo Testamento, o deus do bem e do espírito, e o deus do Antigo Testamento, do mal e da carne, o mundo material, sua criação. O catarismo se difundiu em todo o sul e sudoeste da França, tendo a região de Languedoc como centro,  atraindo a atenção do Vaticano, o papa Inocêncio III, após enviar uma missão pontifícia fracassada para eliminar com palavras a heresia – Pierre de Castelnau, o enviado papal, foi assassinado pelos albigenses -, convocou uma grande Cruzada contra os cátaros, conhecida como Cruzada Albigense ou Cruzada Cátara (1209-1229), grandes nobres como o barão inglês Simon de Montfort e os reis Felipe II e Luís VIII da França participaram, e ela resultou na completa e total extinção do catarismo, com destaque para a cidade de Béziers, onde após a quebra do cerco, houve uma carnifica indiscriminada com mais de 200 mil cátaros mortos.

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Representação gótica do início do séc. XIV da Cruzada Albigense contra os cátaros.

Retomando a rigor o tema, paradoxalmente, características importantes do culto a R’hllor não encontram nenhum paralelo na antiga religião persa, mas sim em um de seus herdeiros: o Cristianismo, durante sua difusão no Império Romano e ascensão política a partir do séc. IV, também promovida e ”adotada” por um dos vários pretendentes ao poder em meio a um cenário de crise político-militar, instabilidade, conturbações e uma grande guerra civil…

  • O Universalismo cristão e o Cristianismo no Império Romano 

Inversamente ao zoroastrismo e similarmente ao cristianismo, o culto a R’hllor possui um caráter fundamentalmente universalista e missionário e não é monolítico, existem várias ramificações, interpretações distintas – o discurso e as atitudes dissonantes dos sacerdotes vermelhos desde Moqorro e Benerro a Thoros de Myr e Melisandre ao longo dos livros atestam isso – em contraste com religiões indissociavelmente atreladas a uma cultura específica, como a Fé dos Sete em relação à cultura ândala, os Deuses Antigos em relação aos Primeiros Homens, o Deus Afogado com os homens de ferro e etc – por isso não vemos septões e septãs pregando em regiões fora da zona de influência da cultura ândala, no Sul dos Sete Reinos, ou nortenhos que cultuam os Deuses Antigos tentando converter estrangeiros a sua fé -, os preceitos que os sacerdotes vermelhos difundem em Essos e Westeros tem um propósito de abranger a todos os povos e culturas.

O cristianismo, em seus primórdios, na periferia do Império Romano, era visto e reconhecido como uma mera seita dissidente do judaísmo, mas na verdade tratava-se de uma religião completamente revolucionária em essência e substância, pois era universalista e missionária, ao passo que as religiões monoteístas anteriores, como os próprios judaísmo e zoroastrismo, eram religiões locais, tribais, eram por demais vinculadas as culturas que as criaram, judaica e persa, e por isso não tinham o apelo universal e missionário que o cristianismo, desde os tempos apostólicos, teve, sem distinguir judeus e gentios, romanos, gregos ou bárbaros – o que dava margem a múltiplas interpretações e a formação de ramificações distintas, de seitas, como o gnosticismo, o montanismo, o donatismo, o priscilianismo, o marcianismo, maniqueísmo,  arianismo e etc  – mas isso também não surgiu do nada.

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Mapa representando a difusão do cristianismo durante o Império Romano e após a sua queda, com destaque para a expansão do movimento monástico.

O historiador Bernard Lewis afirma que o universalismo cristão não foi nada mais que a ampliação, o desenvolvimento natural, dos princípios de inclusão das três mais importantes civilizações do ocidente: judaica, grega e romana, nessas civilizações as barreiras culturais não eram insuperáveis, podiam ser cruzadas, ou mesmo eliminadas, entre gregos e romanos o chamado bárbaro seria incluído no mundo através da adoção da língua – grega ou latina – e da cultura greco-romana, podendo adquirir a cidadania romana no Império – como foi o caso de um famoso apóstolo, Paulo de Tarso -, entre os judeus o chamado gentio era admitido em seu mundo pela conversão e a aceitação das leis judaicas, porém a grande diferença entre os princípios de inclusão dessas civilizações e o revolucionário cristianismo é que enquanto os primeiros não procuravam novos adeptos ou cidadãos, mas os aceitavam, os cristãos tinham, e ainda tem, por principal objetivo a conversão, a busca de novos membros.

A inversão presente no caso é que enquanto o cristianismo primitivo foi cruel e opressivamente perseguido pelo Estado romano sob sucessivos imperadores romanos – desde Nero e Domiciano até Aureliano e Diocleciano – durante mais de três séculos, em sua fase inicial de expansão em Westeros o culto à R’hllor já é o perseguidor, ações como a destruição do Septo de Pedra do Dragão e a queima do Bosque Sagrado de Ponta Tempestade evocam o cristianismo já hegemônico no Império, após se tornar a religião oficial durante o reinado de Teodósio I, sendo similar a eventos como a destruição de templos politeístas e sua substituição por igrejas, a extinção dos Jogos Olímpicos e o fechamento da Academia de Atenas. 

Nesse mesmo sentido, ambas as religiões em seu processo de difusão no ocidente – Westeros e Império Romano -, possuem um maior apelo entre as camadas sociais mais desfavorecidas e oprimidas, entre os escravos e a plebe, mas também se chegam a nobreza, entre os membros das cortes – soldados, oficiais e governadores romanos se convertiam ao cristianismo desde o séc. II – e um ponto fundamental, importante: durante o processo de difusão no ocidente encontram patrocinadores, patronos, em um pretendente ao cargo máximo de poder – Imperador romano ocidental, Rei dos Sete Reinos – em meio a um cenário de devastação, crise,  instabilidade e caos político-econômico e militar e de grandes guerras civis: Stannis Baratheon e Constantino, o Grande.

  • Entre Constantino e Stannis Baratheon: patronos de uma nova fé, expoentes de novos paradigmas

”Por este sinal de salvação, eu preservei e libertei a vossa cidade do tirano e restaurei a liberdade.” – Inscrição no Arco de Constantino. 

A Batalha da Ponte Mílvia (1520-1524), de Giulio Romano, Cidade do Vaticano, Palácio Apostólico.

A Batalha da Ponte Mílvia (1520-1524), de Giulio Romano, Cidade do Vaticano, Palácio Apostólico.

Em 293, para facilitar o governo e tornar eficiente a administração do Império, que era vasto demais e estava em crescente crise político-econômica e militar desde o fim do séc. II,  o imperador Diocleciano estabeleceu a Tetrarquia, com dois Augustos e dois Césares dividindo o poder – os primeiros acima dos segundos -. Durante o reinado de Diocleciano, o império manteve-se relativamente estável sob a Tetrarquia, mas em 305 ele abdicou do poder e se retirou da vida pública, o que fez o regime tetrárquico ruir e desembocou em uma guerra civil onde augustos e césares disputavam o domínio do Império.

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Mapa do Império Romano durante o reinao de Diocleciano, representado a Tetrarquia.

Constâncio Cloro, pai de Constantino, era um augusto, e governava a partir da província da Britânia, após a sua morte em York em 306, durante uma campanha militar contra os pictos e escotos, Constantino foi proclamado imperador pelas legiões do pai. Nesse momento estava claro que o Império não subsistiria se permanecesse dividido, afinal haviam seis ”imperadores” reivindicando o poder, era necessário uma centralização do poder, a unificação dos domínios de Roma, e Constantino logo encontrou fortes rivais em Maximiano e no filho deste, Maxêncio, que não reconheciam a sua autoridade.

A disputa seria resolvida através de um complexo jogo de alianças, no qual, pela primeira vez, o cristianismo teve enorme influência. Apesar de que durante o reinado de Diocleciano os cristãos tivessem sofrido uma sanguinária onda de perseguições – chamada de ”Grande Perseguição -, eles já formavam uma importante força. Assim passaram a ser em parte tolerados mesmo por seus maiores inimigos e a atuar mais livremente. Mas foi justamente Constantino quem soube melhor utilizar essa força nascente, apresentado-se como o defensor, o patrono do cristianismo, contra o qual Maxêncio lutava.

Entre os dias 27 e 28 de outubro de 312, os destinos de Constantino, da fé cristã e do Império Romano mudaram para sempre. O candidato a imperador romano ocidental, após batalhas por todo o norte da Itália, estava com seu exército estacionado junto ao rio Tibre, a três quilômetros ao norte de Roma, enquanto que seu rival Maxêncio detinha o poder na capital e preparava-se para a batalha. Os homens de Constantino, cansados, enfrentariam uma força muito maior, que se estendia até as muralhas da cidade desde uma curva do rio, cortado neste ponto pela ponte Mílvia. 

Segundo a tradição, no anoitecer da véspera da batalha Constantino viu uma grande luz em forma de cruz no céu com a inscrição em grego ”In touto nika” – ‘‘In hoc signo vinces” em latim, ”sob este sinal vencerás”  -. Outro relato diz que ele teve um sonho em que viu Cristo com as letras qui e ró, que iniciam o nome de Cristo em grego. Após a visão ou o sonho ele mandou seus soldados fazerem estandartes para a batalha com este monograma e pintou-o nos escudos de seus soldados, provavelmente para captar o apoio dos cristãos em Roma. 

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A Visão da Cruz, ca. 1524, escola de Rafael Sanzio.

Constantino era conhecido por ser um grande general e um comandante experiente e hábil, e a batalha foi vencida. Maxêncio morreu afogado no Tibre e sua cabeça foi cortada, espetada numa lança e levada para Roma. Centenas de seus soldados foram arrastados rio abaixo e outras centenas caíram na água. Mas no anos seguintes, Constantino demostraria que as razões para sua ”conversão” foram puramente políticas. 

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Busto de mármore de Constantino, esculpido no séc. lV, Museus Capitolinos, Roma.

A Batalha da Ponte Mílvia é um dos maiores pontos de viragem da história ocidental, pois foi através dela que Constantino ascendeu ao poder e partir desse momento que o cristianismo passou a ser aceito, tolerado e patrocinado pelo Império. Em 313, Constantino concede plena liberdade de culto aos cristãos por meio do Édito de Milão, em 324, ele conquista a metade oriental do império, sob o pretexto de que o imperador romano oriental, seu outrora aliado Licínio, adotara uma política de perseguição ao cristianismo, reunificando as regiões ocidental e o oriental pela penúltima vez na história. Daí em diante Constantino passou a reinar sozinho, colocando fim ao regime de Tetrarquia e restaurando novamente a unidade do império, cujo centro de gravidade se deslocara para o Oriente, onde o imperador iria fundar em 330, na área da antiga colônia grega de Bizâncio, uma grandiosa capital, Constantinopla, a ”Nova Roma”.

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Estátua de bronze de Constantino em York, Inglaterra, perto do local onde ele foi proclamado Augusto em 306.

Tanto Constanto quanto Stannis são herdeiros políticos de personagens falecidos, Stannis de seu irmão mais velho Robert, Constantino de seu pai, Constâncio Cloro. Ambos foram proclamados titulares dos cargos ambicionados – rei e imperador – em lugares distantes dos centros de poder, na ilha Pedra do Dragão no caso de Stannis e na província romana da Britânia no de Constantino. E os dois tiveram ou ainda tem que enfrentar – no caso do primeiro – um grande número de rivais para alcançar o poder, são um entre vários pretendentes a um trono lutando em meio a um cenário de devastação, instabilidade e caos político-econômico.

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A Batalha da Ponte Mílvia, por Charles Le Brun (1619–1690), Getty Research Institute, Los Angeles.

As religiões emergentes surgiram na história dos dois por intermédio de familiares: Flávia Júlia Helena, a mãe cristã de Constantino, influenciou em sua ”conversão” ao cristianismo em 312, ela é uma santa para católicos e ortodoxos. Stannis foi influenciado por sua esposa, Selyse Florent, em sua ”adoção” do culto a R’hllor. Ambos são os principais promotores, patrocinadores, de religiões que tem seus centros originais no oriente, no leste, – Oriente Médio, Essos – em relação as regiões em que são religiões emergentes –  Império Romano, Westeros – e tanto um quanto o outro alteraram seus estandartes com um símbolo da religião a que se ”converteram”, no caso de Constantino trata-se do Labarum – um monograma de Jesus Cristo, formado a partir das letras gregas Chi (χ) e Ró,(ρ), iniciais de Cristo em grego – no de Stannis as chamas do Deus Vermelho.

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Porém, a meu ver, as principais semelhanças residem no fato de que tanto o Baratheon do meio quanto o imperador romano lutam para estabelecer uma nova ordem política e religiosa em Westeros e em Roma, ao mesmo tempo em que são restauradores, reestruturadores da ordem, ambicionam a centralização do poder e a unificação territorial, possuem ideias e conceitos novos, até mesmo revolucionários: Stannis com seu igualitarismo social, meritocracia, culto a R’hllor e uma espécie de ”direito divino”  monárquico fundamentado na crença de Melisandre e dos Homens da Rainha de que ele é Azor Ahai, Constantino com sua ampla reforma militar que incluía a adesão de bárbaros germânicos – foederati – nas fileiras das legiões, sua tolerância religiosa, favorecimento ao ascendente cristianismo e a transferência do centro de poder do ocidente para o oriente, de Roma para Constantinopla, transição que anunciava uma nova era, a passagem da era do politeísmo para a era do cristianismo.

”Olhe-o, Cavaleiro das Cebolas. Meu reino de direito. Meu Westeros… Essa conversa de Sete Reinos é uma loucura. Aegon compreendeu isso há trezentos anos, quando estava onde nos encontramos agora. Pintaram esta mesa por ordem dele. Pintaram rios e baías, colinas e montanhas, castelos, cidades e vilas francas, lagos pântanos e florestas… mas nenhuma fronteira. É tudo um só. Um reino, para que um rei o governe sozinho.” –   A Tormenta de Espadas,  Davos IVCapítulo 36. 

Fugindo um pouco da temática histórica, existe uma clara divisão de opiniões sobre Stannis no fandom, por ser um personagem não carismático, anti-social, introspectivo, taciturno, moderado, sério, inflexível e estóico ele não atrai tanta popularidade quando comparado a outros personagens, e essa divergência entre os fãs se intensificou a partir das mudanças e alterações que o personagem sofreu na série de TV da HBO.

Porém, isso é o que filósofos chamariam de falso problema, o problema não está em considerar Stannis um de seus personagens favoritos e criticar a sua adaptação na série ou questionar a perspectiva que os fãs do personagem em questão tem dele, desmerecer essa visão que valoriza o personagem e tender a ver com olhos mais abertos e receptivos o Stannis de David Benioff e D. B. Weiss: o real problema a ser elucidado, a pergunta a ser respondida, é saber o que faz existir uma polarização tão grande de opiniões e visões a respeito desse personagem, o que o torna tão relevante, especial e fascinante para os que simpatizam com ele e o que o torna tão questionável e mesmo hipócrita e contraditório perante outros leitores? Aliás, qual o real papel de Stannis na saga, o que ele representa? Creio que as palavras do próprio autor podem ajudar a responder essas perguntas.

”Os homens ainda são capazes de grande heroísmo. Mas eu não acho que necessariamente existam heróis. Isso é algo que está muito presente em meus livros: Eu acredito em grandes personagens. Somos todos capazes de fazer grandes coisas, e de fazer coisas ruins. Temos os anjos e os demônios dentro de nós, e nossas vidas são uma sucessão de escolhas. Olhe para uma figura como Woodrow Wilson, um dos presidentes mais fascinantes da história americana. Ele era desprezível sobre questões raciais. Ele era um segregacionista sulista da pior espécie, aplaudindo DW Griffith e ”O Nascimento de uma Nação”. Ele efetivamente era um defensor Ku Klux Klan. Mas em termos de política externa e da Liga das Nações, ele tinha um dos grandes sonhos do nosso tempo. A guerra para acabar com todas as guerras – o que nos faz rirmos dele agora, mas Deus, era um sonho idealista. Se ele tivesse sido capaz de alcançá-lo, estaríamos construindo estátuas suas de cem de metros de altura, e dizendo: “Este foi o maior homem da história da humanidade: Este foi o homem que extinguiu a guerra.” Ele era um racista que tentou acabar com a guerra. Agora, uma coisa anula a outra? Bem, elas não anulam uma a outra. Você não pode fazer dele um herói ou um vilão. Ele era os dois ao mesmo tempo. E todos nós somos ambos.” – George R.R. Martin em entrevista à Rolling Stone. 

”Uma coisa não anula a outra”, em outra entrevista ele diz algo como ”cada é o herói de sua própria história, o herói de um lado é o vilão do outro”, bem, Stannis é um dos maiores exemplos dessa ambiguidade moral, não é preto ou branco, herói ou vilão, é um personagem cinza, ambivalente, cheio de dualismos, conflitos internos, de oposição de valores e conceitos e etc, e além disso, ele provavelmente também é o maior representante dessa mesma filosofia realista do autor acerca da natureza humana, como a frase abaixo atesta.

”E foi justiça. Um bom ato não lava os maus, e um mau não lava os bons. Cada um deve ter sua recompensa. Você foi um herói e um contrabandista. Aqueles senhores perdoados fariam bem em refletir sobre isso…” – Stannis à Davos, A Fúria dos Reis, Davos II, Capítulo 42.

A concepção de justiça de Stannis pode parecer excessiva e inflexível demais, porque ele a leva à risca, a aplica às últimas consequências, ele é tão justo que sua perspetiva de justiça não tem um pingo de benignidade, pois para ele não existe compaixão, nem há meios termos, nem redenções, fazer o bem é o seu dever e não é por meio dele que se limpa seu nome de um mancha do passado. A clássica imagem da justiça cega,imparcial e impessoal se encaixa perfeitamente com sua concepção, Stannis não é um homem honrado ou bom, tal como foi Eddard Stark, mas sim um homem que busca o bem a qualquer custo, que não se quebranta frente a algumas lágrimas, não lamenta a sorte de condenados, nem sente pena por um desvalido, para ele a lei é a lei.

”Não há na terra criatura que seja, nem de longe, tão aterradora como um homem verdadeiramente justo.” – Varys sobre Stannis, A Guerra dos Tronos, Eddard XVCapítulo 58.

Mas ao mesmo tempo, essa mesma lei, esse mesmo princípio, esse valor que determina que ”um bom ato não lava os maus, e um mau não lava os bons”, sua visão política meritocrática e sócio-igualitária – que pune e premia tanto nobres quanto plebeus, sem distinções – o levou a recompensar Davos, seu melhor e único amigo, e o tornar um nobre e posteriormente o nomear sua Mão do Rei, o levou a trabalhar em conjunto e de forma bem sucedida com Paxter Redwyne durante a Rebelião Greyjoy, o mesmo homem que ele presenciou acampado com pompa e circunstância ao lado de Mace Tyrell liderando o cerco de Ponta Tempestade por mar e terra durante um ano na Rebelião de Robert, princípio que o levou a dizer ”perdoei-lhes sim, estão desculpados, mas não esqueci” sobre os senhores das Terras da Tempestade que lhe traíram em favor de seu irmão mais novo, esse mesmo princípio moral o levou a recusar, ainda que de forma hesitante, os inúmeros pedidos de seus apoiadores e conselheiros – de Melisandre e sua esposa à Axell Florent – para sacrificar Edric Storm, o filho bastardo de seu irmão mais velho, aquele que o rejeitou e tratou mal durante toda a sua vida – e ainda maculou seu leito nupcial com a prima de Selyse -, princípio que também levou-o a abrir os portões da Muralha aos selvagens derrotados na Batalha de Castelo Negro, unindo-se a eles contra o inimigo em comum.

”Eu trarei justiça a Westeros… Cada homem colherá o que semeou, do mais alto dos senhores ao mais baixo rato de sarjeta. E alguns perderão mais do que as pontas dos dedos, garanto. Fizeram o meu reino sangrar, e não me esqueço disso.” –  A Tormenta de Espadas, Davos V, Capítulo 54. 

”Lorde Seaworth é um homem de nascimento humilde, mas recordou-me de meu dever, quando tudo aquilo em que eu conseguia pensar era nos meus direitos. Tinha posto a carroça antes dos bois, disse Davos. Estava tentando conquistar o trono para salvar o reino, quando devia estar tentando salvar o reino para conquistar o trono. – Stannis apontou para o norte – É ali que encontrarei o inimigo que nasci para enfrentar… quanto mais nos sangrarmos uns aos outros, mais fracos estaremos todos quando o verdadeiro inimigo cair sobre nós. Quando os ventos frios se erguerem, sobreviveremos ou morreremos juntos. É hora de fazermos uma aliança contra o nosso inimigo comum.” – A Tormenta de Espadas, Jon XI, Capítulo 76.

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Stannis é um personagem que se for superficialmente analisado, assim como o culto à R’hllor que ele ”promove”, não será plenamente compreendido, sua antipatia, seriedade, inflexibilidade, caráter introspectivo e estóico se vistos sob uma ótica simplista e reducionista resulta em erros de interpretação e visões superficiais do personagem, Martin não criou e escreve personagens simplistas, mas grandes personagens, complexos, densos, ambivalentes e com vários conflitos internos.

”Demônios feitos de neve, gelo e frio. O antigo inimigo. O único inimigo que importa.” –  A Tormenta de Espadas,  Samwell V, Capítulo 78. 

”… É importante que os livros individuais referem-se às guerras civis, mas o título da série nos lembra constantemente  que a  verdadeira questão está no Norte, além da Muralha, e Stannis torna-se um dos poucos personagens a entender totalmente essa situação, é por isso que, apesar de tudo, ele é um homem justo, e não apenas uma versão de Henrique VII, Tibério ou Luís XI.” – GRMM, em antiga entrevista à Amazon. 

Voltando as suas relações com Constantino… Tanto o Baratheon do meio quanto o grande imperador romano usam religiões emergentes, como meios para seus fins, para impulsionar seus projetos e planos políticos, as exploram como elemento agregador e unificador, como força moral e psicológica em tempos de conturbações, divisão e fragmentação polícia, devastação e instabilidade, ambos são essencialmente pragmáticos, suas alianças com essas religiões foram menos religiosas que políticas, onde ambos os lados tinham muito a ganhar, em um acordo com mútuos benefícios.

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Moeda de bronze do reinado de Constantino, representando o Labarum, símbolo cristão.

Ambos apoiam e patrocinam religiões em que eles próprios não acreditam, Constantino só foi batizado em seu leito de morte em 337, durante todo o seu reinado ainda se cunhavam moedas com o símbolo pagão do Sol Invictus, apesar de seu interesse pelo cristianismo manifestado em casos como sua liderança no Primeiro Concílio de Niceia, em 323, ele continuou a ser politeísta na prática por toda a vida, lembrando que o seu Édito de Milão não apenas tornou o cristianismo uma religião aceita e tolerada pelo Estado (religio licita), mas também concedeu liberdade de culto para as demais religiões praticadas em todo o império, Constantino foi um governante tolerante, que respeitava a diversidade religiosa, as perseguições ao politeísmo e o processo que tornou o cristianismo a religião oficial do Estado são obras posteriores, ocorridas quase meio século após sua morte, durante o reinado de Teódosio I, através do Édito de Tessalônica.

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A Visão de Constantino, 1670, escultura equestre de Gian Lorenzo Bernini (1598-1680), Cidade do Vaticano, Palácio Apostólico.

Stannis evidentemente negligencia e despreza as divindades e as religiões, ele poderia ser considerado cético ou mesmo agnóstico, lembrando que acreditar em magia e usa-la a seu favor é algo completamente distinto, que está distante, de possuir uma crença em alguma força divina que opera através dessa magia – seria quase como dizer que Aegon, o Conquistador adorava os antigos deuses de Valíria devido a seus três dragões, e provavelmente, ao que tudo indica, o mesmo ”converteu-se” a Fé dos Sete mesmo antes de desembarcar em Westeros –  esse desprezo e negligência aos deuses e as religiões é uma decorrência direta de um grande trauma de sua infância.

”Deixei de acreditar em deuses no dia em que vi o Orgulho do Vento quebrar-se do outro lado da baía. Jurei que quaisquer deuses que fossem monstruosos a ponto de afogar minha mãe e meu pai nunca teriam a minha adoração. Em Porto Real, o Alto Septão gostava de tagarelar comigo sobre o modo como toda justiça e bondade emanavam dos Sete, mas tudo o que sempre vi foi que ambas eram feitas pelos homens…  Os Sete nunca me trouxeram nem um pardal. É tempo de experimentar outro falcão, Davos. Um falcão vermelho.” – A Fúria dos Reis, Davos I, Capítulo 10. 

Aliás, essa perspectiva anti-transcendente de que valores e princípios como o bem e a justiça são determinados pelo próprio homem colocam a concepção política de Stannis muito próxima ao pensamento de filósofos empiristas e contratualistas como John Locke e principalmente Thomas Hobbes, que também como o Baratheon do meio possuía uma perspetiva pessimista acerca da natureza humana, mas esse é um tema para outro texto.

Outra semelhança notável é que para os Homens da Rainha, os mais leais e entusiasmados dos apoiadores de Stannis, o lema de ordem é: ”Um reino, um deus, um rei”, enquanto que para as legiões romanas e o império em geral a partir de Constantino a regra era: ”Um império, um deus, um imperador”, frase que o Império Bizantino herdou do império romano ocidental.

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Mapa do Império Romano durante o reinado de Constantino.

Historiadores como Edward Gibbon e filósofos como John Stuart Mill foram ferrenhos críticos da figura de Constantino e de sua promoção do cristianismo no Império Romano, o responsabilizando em grande parte pelo declínio e a queda definitiva do império ocidental  devido a sua ”conversão” cristã e pelos rumos centralizadores e opressores que subsequemente o cristianismo tomou, culminando em seu predomínio e hegemonia durante a Idade Média, Stuart Mill chega ao ponto de indagar a questão sobre o quão diferente teria sido a história ocidental e da Igreja se tivesse sido um imperador filósofo e republicano como Marco Aurélio que adotasse o cristianismo, e não um imperador centralizador, militarista e pragmático como Constantino.

Porém, essas críticas são anacrônicas e descontextualizadas, provavelmente se não fosse pela obra e o legado de Constantino o Império Romano Ocidental teria caído muito antes de 476 – diversos outros fatores, sociais, econômicos e político-militares, levaram a queda de Roma, o cristianismo não foi determinante para isso – e o Império Romano Oriental, mais conhecido como Império Bizantino (395-1453), não teria sobrevido por quase mil anos após o colapso de seu corresponde no outro lado do Mediterrâneo, e os rumos que a fé cristã tomou foram consequências de ações posteriores a ele, levadas a cabo por outros imperadores, não por Constantino.

  • Conclusão

Chegando ao fim dessa análise, podemos indagar: então, será que essa difusão e ascensão política do culto a R’hllor  são o prelúdio para um posterior processo de hegemonização e predomínio dessa religião estrangeira em Westeros, substituindo a majoritária Fé dos Sete? É uma possibilidade, mudanças de predomínio religioso já ocorreram várias vezes em Westeros e Essos e mais ainda na história real, porém assim como a ascensão do cristianismo no Império Romano dependeu do sucesso da pretensão e do reinado de Constantino, atualmente a difusão da religião essosi depende bastante – mas não exclusivamente, já que há outro setor de expansão, a Irmandade sem Estandartes atuando nas Terras Fluviais – do sucesso da pretensão ao trono de seu patrono, Stannis, que no atual momento está acampado com seu exército de sulistas e nortenhos em meio a dois lagos congelados a três quilometros de Winterfell, aguardando o ataque das forças de Roose Bolton, em meio a preparação para a batalha ele conseguiu estabelecer uma importante aliança com o poderoso e influente Banco de Ferro de Braavos e enviou Justin Massey a essa cidade livre para angariar recursos e contratar tropas mercenáras… tendo esse contexto em vista, podemos dizer que o caminho do Baratheon do meio não acabou, ele ainda tem um papel a cumprir, e o culto à R’hllor  também.

Por fim, retomando uma das frases aqui destacadas de Melisandre:

”… Há gelo e há fogo. Ódio e amor. Amargor e doçura. Macho e fêmea. Dor e prazer. Inverno e verão. Mal e bem. Vida e morte. Em toda parte há opostos. Em toda parte há a guerra.”

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Anjo da Morte, 1890, de Evelyn De Morgan (1855-1919).

Se analisarmos essa frase, veremos que Martin compõe uma série de pares aproximadamente complementares. De um lado, temos uma lista das seguintes palavras: gelo, ódio, amargura, masculino, dor, inverno, o mal e morte. Do outro: fogo, amor, doçura, feminino, prazer, bem e vida. Há um lado dominado por palavras de sentido triste ou negativo – dor, morte, ódio, amargor e mal – relacionadas a palavras cujo significado é relativo – inverno, gelo -, que estão associadas com a masculinidade. Do outro lado, o feminino, temos a doçura, o prazer, o verão, o bem, o amor e a vida.

Em um lado temos o fogo de Daenerys, no outro, em contraparte, a Gelo de Eddard, uma viva e o outro morto. Também temos o amargurado Stannis e a doce Melisandre sussurrando belas palavras em seus ouvidos, e o angustiado Tyrion e a prostituta Shae. A dor dos Starks do Norte – o inverno está chegando – contrastanto com o prazer e comodidade no Sul dos Lannisters, Tyrells e Martells, a morte dos personagens masculinos – Viserys, Robert, Eddard, Renly, Robb, Oberyn, Quentyn, Tywin, Kevan – em contraponto a vida dos femininos – Daenerys, Cersei, Catelyn, Brienne, Sansa, Ellaria, Arianne -, representado a eterna luta entre Eros e Thanatos conceituada por Freud,  um é o impulso construtivo e criativo,  o instinto da vida, o outro é o impulsivo negativo e destrutivo, mortal, se de um lado temos o prazer, a vida e o fogo, do outro lado há a dor, a morte e o gelo.

 

 

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