Os Sete Reinos de Westeros – Origem e Manutenção do termo

”Olhe-o, Cavaleiro das Cebolas. Meu reino de direito. Meu Westeros… Essa conversa de Sete Reinos é uma loucura. Aegon compreendeu isso há trezentos anos, quando estava onde nos encontramos agora. Pintaram esta mesa por ordem dele. Pintaram rios e baías, colinas e montanhas, castelos, cidades e vilas francas, lagos pântanos e florestas… mas nenhuma fronteira. É tudo um só. Um reino, para que um rei o governe sozinho.” – Stannis Baratheon, A Tormenta de Espadas, Davos IV,  Capítulo 36.

Sete Reinos de Westeros

Em ASOIAF, grande parte da trama se passa nos Sete Reinos de Westeros, o que, para causar uma confusão imediata, é realmente uma nação. Mas, na verdade, há nove regiões distintas no reino e oito famílias dominantes. E o que acontece com os selvagens? Evidentemente, eles não são computados. Porém, surge a questão: de onde os “Sete” vem?

As organizações de Westeros são relutantes em mudar os seus nomes, muitas vezes mantendo designações e hierarquias inalteradas durante séculos ou mesmo milênios. No mundo real, essas coisas mudam com mais frequência. Lembram-se de quando o G8 era G7 e antes disso G6? Ou quando o Sistema Solar tinha nove planetas?

Porém, em Westeros o número sete é sagrado, sendo o numero simbólico da religião predominante na maior parte de Westeros – desde a chegada e as conquistas dos essosi Ândalos entre seis e três mil anos antes da Conquista -, dessa forma o desejo de manter em  voga o termo ”Sete Reinos” torna-se mais compreensível.

Isso, é claro, exige alguma argumentação para fazer a contagem exata durante a história de Westeros. Mesmo os produtores da série da HBO recentemente pareciam confusos sobre se a contagem real é de sete ou oito reinos e acredito que essa questão será retomada com os novos fãs que surgem com o sucesso da série.

George R.R. Martin, evidentemente, foi perguntado sobre isso. Sua explicação é simples: quando Aegon, o Conquistador iniciou sua invasão a Westeros, haviam sete reinos independentes no continente. Estes eram:

1 – Reino das Ilhas e dos Rios: governado de Harrenhal pela Casa Hoare.
2 – Reino das Terras da Tempestade: governado de Ponta Tempestade pela Casa Durrandon.
3 – Reino do Rochedo: governado do Rochedo Casterly pela Casa Lannister.
4 – Reino da Campina : governado de Jardim de Cima pela Casa Gardener.
5 – Reino do Norte: governado de Winterfell pela Casa Stark.
6 – Reino da Montanha e Vale: governado do Ninho da Águia pela Casa Arryn.
7 -Reino de Dorne: governado de Lançassolar pela Casa Martell.

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Mapa político de Westeros antes da Conquista.

Assim, parece que os Targaryen de Pedra do Dragão usaram o termo “Sete Reinos” para se referir as sete nações que existiam em Westeros quando Aegon I partiu para conquistar todos eles. Mas Aegon teve que enfrentar alguns obstáculos em seu caminho.

Primeiramente, após desembarcar na Baía da Água Negra e rapidamente subjugar as casas da região, ele invadiu as Terras Fluviais – na época ocupadas pelo homens de ferro por mais de três séculos -, no que foi providencialmente auxiliado por uma revolta popular liderada pela Casa Tully de Correrrio.

Aegon incinerou Harrenhal por meio de seu dragão Balerion – com o rei Harren Hoare e seus filhos lá dentro -. Os homens de ferro sobreviventes elegeram Vickon Greyjoy de Pyke como seu novo senhor. Em seguida, Greyjoy jurou lealdade a Aegon, que também aceitou o juramento de fidelidade de Edwyn Tully e nomeou-o suserano do Tridente. Assim, ele já havia conquistado um reino de qualquer maneira.

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A destruição de Harrenhal por Balerion, que assinalou a conquista de um dos Sete Reinos por Aegon.

Paralelamente, houve um contratempo aos planos de Aegon: a frota que ele havia enviado para o norte, comandada por Daemon Velaryon, seu Mestre dos Navios, e sua irmã/esposa Visenya, para conquistar o Vale, foi derrotada pela frota Arryn na Batalha de Gulltown e Velaryon morreu em combate, o que levou  Visenya  a destruir a marinha inimiga com seu dragão Vhagar.

No leste, Orys, seu meio-irmão e melhor amigo, e também a primeira Mão do Rei da história, demonstrou sua perícia militar vencendo a Batalha da Última Tempestade ao lado de Rhaenys, matando o último Durrandon, Argilac, o Arrogante, no processo, tomando sua herdeira Argella como esposa e fundando a Casa Baratheon.

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Orys liderando suas tropas na tomada de Ponta Tempestade.

Em seguida, ocorreu a batalha mais importante da história de Westeros: a do Campo de Fogo. Fruto da aliança entre os monarcas do Rochedo e da Campina, Loren I Lannister e Mern IX Gardener, o chamado ”Exército dos dois Reis”, formado por 55 mil homens, marchou para confrontar as forças de Aegon.

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A Batalha do Campo de Fogo, o maior ponto de viragem na história de Westeros, marcou a transição entre a era dos reinos fragmentados para a era do continente unificado por uma única dinastia, findando com um período histórico que perdurou por milênios, iniciado pelos Primeiros Homens e continuado pelos Ândalos.

Concluindo-se ela, a Campina e o Rochedo se renderam após serem esmagadoramente derrotados. O outrora rei Loren foi capturado, jurou lealdade e foi mantido como Senhor das Terras do Oeste, mas a dinastia real da Campina foi extinta durante a batalha, por isso, em sequência, Aegon nomeou os intendentes dos Gardeners, a Casa Tyrell, em seu lugar como senhores da Campina.

Em seguida, Aegon marchou para o Norte a fim de confrontar as forças mobilizadas pelo rei Torrhen Stark, mas não houve necessidade de confrontos, depois de contemplar as hostes do Targaryen, Torhen dobrou os joelhos e lhe jurou fidelidade, bem como posteriormente a Rainha Regente do Vale de Arryn, Sharra Arryn, graças ao passeio de seu filho Ronnel no dragão de Visenya, Vhagar.

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O Rei no Norte, Torrhen Stark, se ajoelha e jura fidelidade a Aegon e suas irmãs.

Neste momento, provavelmente crucial para o sistema de numeração do reino, Aegon foi recebido em Vilavelha, governada pela Casa Hightower, e ungido rei pelo Alto Septão no Septo Estrelado, tendo sua missão de unir Westeros oficialmente abençoada pela Fé dos Sete, marco do calendário westerosi e acontecimento político análogo à histórica ”conversão” de Constantino – algo que iria se reeditar com um personagem da trama central dos romances, aspirante a único governante como o imperador romano e Aegon, só que com uma religião ascendente, não predominante -.

”Há trezentos anos, quando Aegon, o Dragão, desembarcou no sopé desta mesma colina, o Alto Septão trancou-se no interior do Septo Estrelado de Vilavelha e rezou durante sete dias e sete noites, sem ingerir nada além de pão e água. Quando saiu, anunciou que a Fé não se oporia a Aegon e às irmãs, pois a Velha erguera a sua lanterna e lhe mostrara o caminho adiante. Se Vilavelha pegasse em armas contra o Dragão, Vilavelha arderia, e Torralta, Cidadela e o Septo Estrelado seriam derrubados e destruídos. Lorde Hightower era um homem devoto. Quando ouviu a profecia, manteve as suas forças em casa e abriu os portões da cidade a Aegon quando ele chegou. E Sua Alta Santidade ungiu o Conquistador com os sete óleos. ” – Alto Pardal,  O Festim dos Corvos, Cersei VI, Capítulo 28. 

”Aegon tinha ido para a maior cidade em Westeros, Vilavelha. Ali, o Alto Septão residia. Ele rezou por sete dias e foi respondido pela Velha. Ele foi advertido de que, se eles lutassem, Vilavelha cairia. O governante de Vilavelha, Banfred Hightower, era um homem cauteloso. Ele escutou o Alto Septão e logo Vilavelha se rendeu. No Septo Estrelado, Aegon foi ungido em óleo e proclamado Aegon, o Primeiro de Seu Nome, Rei dos Primeiros Homens, dos Ândalos e dos Roinares. Porque ao meistres estavam presentes na coroação, esta data é considerada a data correta…. ”  –  The History of Aegon’s Conquest, The World of Ice and Fire,  The Citadel, So Spake Martin. 

Oldtown, ruled by House Hightower

A rendição de Vilavelha e a subsequente coroação de Aegon marcam o fim da Guerra da Conquista e o início do reinado Targaryen.

Posteriormente, Aegon enviou sua irmã/esposa Rhaenys para liderar uma invasão a Dorne, o último remanescente dos reinos independentes de Westeros. Porém, surpreendentemente, os Targaryen fracassaram nessa empreitada e Aegon desistiu de tomar iniciativas para conquistar Dorne, decisão que continuou em vigor no reinado de seus sucessores por pouco menos de dois séculos, até a ascensão do belicista Daeron I, o Jovem Dragão.

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Representação do veado de prata durante o reinado de Aegon, o Conquistador e suas irmãs.

As razões por trás da desistência de Aegon não eram muito claras até o surgimento de informações reveladas por fãs sobre o aguardado livro ”The World of Ice and Fire”. Essas revelações dão conta de que Rhaenys e seu dragão Meraxes morreram justamente em Dorne, provavelmente no campo de batalha, algo que também iria se reeditar séculos depois.

Os dorneses foram bem sucedidos em sua resistência e triunfaram onde quatro dos Sete Reinos falharam devido ao conhecimento de terreno, o clima desfavorável ao uso de dragões em batalha e principalmente ao emprego de táticas militares não usais – pois o uso de armas anti-convencionais exigem táticas também não convencionais para confronta-las – , como sabotagem, falsas retiradas e a guerrilha.

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Os principais eventos e batalhas da Guerra da Conquista.

Destarte, analisando a história comparativamente, enquanto a resistência de Dorne foi reconhecidamente inspirada na resistência do País de Gales a várias tentativas de conquista por parte da Inglaterra Normanda e Plantageneta entre os séculos XI e e XIII, a desistência de Aegon em prosseguir com seu plano de conquista integral de Westeros e a retirada em Dorne evocam o fim da expansão romana na Europa continental, ocorrido durante o reinado de Otaviano Augusto. Augusto, como Aegon, tinha planos ambiciosos de estender seu domínio por todo um continente, mas também como Aegon tinha um incômodo e duro obstáculo o impedindo de concretiza-los: as tribos germânicas.

Esses ambiciosos planos, como os de Aegon I, foram por água abaixo com uma acachapante derrota militar: a Batalha da Floresta de Teutoburgo, ocorrida no outono do ano 9 de nossa era, onde três das melhores Legiões romanas, comandadas pelo general Publius Quinctilius Varus, foram emboscadas e massacradas pelos germânicos liderados por Arminius, um comandante germânico aliado desertor.

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O exército romano de Varo sofrendo o ataque surpresa na Floresta de Teutoburgo.

O impacto do fracasso Targaryen em Dorne e da humilhante derrota romana na Germânia foi imediato, o historiador romano Suetônio afirma que Augusto permaneceu por meses triste e deprimido, batendo a cabeça contra as paredes de seu palácio e gritando repetidamente: “Quintili Vare, legiones redde!“ – ”Varo, devolva minhas legiões!”’ – o que nos leva a imaginar o que Aegon I pode ter dito ao saber das notícias sobre a expedição no extremo sul: ”Dorneses, devolvam Rhaenys e Meraxes”!

Os desdobramentos políticos tanto das mortes de Rhaenys e Meraxes quanto do ”Desastre de Varo’‘ foram enormes e reverberaram por séculos tanto em Westeros quanto no Império Romano, no primeiro transformando a Guerra da Conquista em um conflito inconclusivo e mantendo Dorne como um reino à parte, independente do resto do continente unificado pelos Targaryen, por quase dois séculos, no segundo selando o fim da era do expansionismo romano no ocidente e lançando as bases para o posterior declínio político-econômico do Império. 

Após o fim da Guerra da Conquista e a unificação parcial de Westeros, a numeração dos reinos ficou assim:

1 – As Terras Fluviais: governadas pela Casa Tully de Correrrio.
2- As Ilhas de Ferro: governadas pela Casa Greyjoy de Pyke.
3 – As Terras da Tempestade: governadas pela Casa Baratheon de Ponta Tempestade.
4 – As Terras do Oeste: governadas pela Casa Lannister de Rochedo Casterly.
5 – A Campina: governadas pela Casa Tyrell de Jardim de Cima.
6 – O Norte: governado pela Casa Stark de Winterfell.
7 – O Vale: governado pela Casa Arryn do Ninho da Águia.

Como já dito, Dorne era um reino independente, ao passo que as Terras da Coroa, o território ao redor da recém-fundada capital, Porto Real, que foi aos poucos tomando forma, era uma área independente sob o comando direto da Coroa , situação similar a do Distrito Federal no Brasil e a do Distrito de Columbia nos EUA, que não são contados como estados.

Esta foi a situação política felizmente lógica por cerca de dois séculos. No entanto, em 195-196 após a Conquista, deflagrou-se uma guerra civil sangrenta: a Primeira Rebelião Blackfyre.

Após a decisiva vitória Targaryen na Batalha de Redgrass Field, o rei Daeron II conseguiu preservar seu governo e os Blackfyre sobreviventes e seus partidários fugiram para o exílio em Essos.

Uma das principais razões para a eclosão desse conflito foi justamente a problemática questão da inacabada obra de Aegon I: a conquista dos Sete Reinos originais, logicamente, a anexação de Dorne ao reino.

Daeron II, estimulado pelo fracasso total das guerras movidas contra Dorne por seus antecessores, Daeron I e Aegon IV, recorreu a outros meios: usou da diplomacia matrimonial para juntar os dorneses ao reino. Se o seu primo Baelor I o tinha casado com uma princesa dornesa – Myriah Martell – para selar a paz com Dorne após a morte de Daeron I, porque ele não poderia oferecer sua irmã ou meia-irmã – depende da perspectiva histórica – Daenerys como esposa ao Príncipe de Dorne – Maron Martell -, para assim garantir a inclusão desse empecilho de Aegon I e outros Targaryen ao reino?

Porém, seu primos ou meio-irmãos – dependendo da perspectiva – Daemon Blackfyre e Aegor Rivers, juntamente com seus seus aliados, principalmente membros de Casas importantes da Campina, discordaram da política de Daeron de ”tudo por Dorne”, seja por motivos pessoais, como os de Daemon, devido ao seu amor correspondido por sua meia-irmã ou irmã, ou por razões políticas, já que Daeron encheu a corte de dorneses e os favorecia.

De qualquer forma, após o matrimônio de Daenerys e Maron Martell e o fim da Primeira Rebelião Blackfyre, Dorne foi finalmente absorvido ao reino após quase dois séculos desde a Guerra da Conquista.

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Daeron II, o rei que, provavelmente motivado por razões religiosas, alterou a contagem, alteração que persiste há mais de um século.

Naturalmente, essa situação deu a Daeron uma grande dor de cabeça, uma vez que isso significava que agora ele governava oito reinos. Provavelmente por motivos religiosos, ele não queria mudar o nome do reino, então ele teve que rebaixar um dos reinos existentes. Verificando-os, houve um candidato mais do que óbvio: a Casa Greyjoy das Ilhas de Ferro. Eles eram praticamente independentes de qualquer forma, raramente interagindo com a política do continente, e na época da guera tinham aproveitado o caos para invadir e saquear ao longo da costa, o que não era basicamente legal.

Assim, os Greyjoys foram rebaixados e os Martells promovidos. Isto deixou a contagem assim, em ordem de sujeição aos Targaryen:

1 – As Terras Fluviais
2 – As Terras da Tempestade
3 – As Terras do Oeste
4 – A Campina
5 – O Norte
6 – O Vale
7 – Dorne

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Desconsiderando o dragão Targaryen e a lula-gigante Greyjoy, o mapa retrata o status político das regiões de Westeros após a alteração promovida por Daeron II .

Esta é a contagem dos reinos no momento em que o primeiro livro da saga começa. As Ilhas de Ferro estão fora da numeração há mais de um século e ninguém parece se importar com isso, embora em uma cena memorável, no terceiro livro, em seu casamento Joffrey propõe o restabelecimento das Ilhas e a exclusão do Norte como parte da contagem:

”Lorde Mace Tyrell avançou para apresentar o seu presente: um cálice dourado de noventa centímetros de altura, com duas ornamentadas alças curvas e sete lados cintilando de pedras preciosas. – Sete lados para os sete reinos de Vossa Graça – explicou o pai da noiva. Mostrou- lhes como cada lado ostentava o símbolo de uma das grandes casas: leão de rubi, rosa de esmeralda, veado de ônix, truta de prata, falcão de jade azul, sol de opala e lobo gigante de pérola. – Uma taça magnífica – disse Joffrey -, mas parece-me que vamos ter de arrancar o lobo e pôr uma lula no seu lugar. ” – A Tormenta de Espadas, Sansa IV, Capítulo 59. 

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