Cidades Livres: As Cinzas de Valíria

 ”Talvez sejam eles os espertos, e nós os tolos… Algumas das Cidades Livres pensam que somos todos selvagens do nosso lado do mar estreito. Ou então acham que somos crianças, chorando pela mão forte de um pai. ” – A Dança dos Dragões, Jorah Mormont, Tyrion VII, Capítulo 27.

Volantis

  • Introdução: herdeiras de Valíria? 

Outrora colônias valirianas – com a notável exceção de Bravos -, Volantis, Pentos, Myr, Bravos, Lys, Lorath, Norvos, Qohor e Tyrosh são culturalmente sofisticadas, economicamente ricas e prósperas e politicamente oligárquicas, como geralmente são as cidades-estado, desde as colônias fenícias no Mediterrâneo e as pólis gregas na Antiguidade até as cidades-estado e Repúblicas marítimas da Itália da Baixa Idade Média e do Renascimento.

Do ponto de vista geográfico e político-econômico as Nove Cidades Livres se distinguem umas das outras, mas todas compartilham do mesmo legado cultural: o da extinta Valíria, e muito devido a esse legado podem ser consideradas repúblicas, – como Valíria era uma Cidade Franca –  quer sejam aristocráticas, como Volantis, mercantis, como Bravos e Pentos, ou teocráticas, como Norvos.

Em geral, como na antiga Valíria, a maior parte de seus sistemas políticos são eletivos, porém oligárquicos: como nas antigas Repúblicas de Roma e Cartago, na teoria, seus governos incluem todos os “proprietários livres” , ou seja os proprietários nascidos livres, na prática, as famílias nobres ou ricas, os grandes proprietários e os donos de grandes impérios comerciais, chamados de ”príncipes mercadores”, mas mais conhecidos sob o nome de Magísteres, governam cada uma das cidades, controlando efetivamente o poder, o que em grande medida torna as regulares eleições e os que nela são eleitos – Triarcas em Volantis, Príncipes em Pentos, Senhores do Mar em Bravos, Arcontes em Tyrosh – nada mais que símbolos, parte da grande herança cultural de Valíria, antigas tradições de uma glória há muita perdida….

O que nos leva a seguinte questão: são as Cidades Livres realmente herdeiras da extinta civilização de Valíria como alegam ser? Ou será que todo o legado cultural que da antiga metrópole elas receberam, e que se evidencia em seus idiomas, em sua sociedade, em costumes e tradições por elas perpetuadas, não passam da continuação de um sistema estagnado? Da prolongação de uma estrutura politica, social e econômica obsoleta, que vem se estendendo desde os áureos milênios do Domínio de Valíria até atualmente? Em suma: as Cidades Livres, estão em um estado de estagnação? Se sim, isso decorre do fato de elas se considerarem herdeiras de um ”império” há séculos extinto? Terá a ”herança” valiriana impossibilitado o desenvolvimento delas, a sua evolução, ou isso é algo que ainda pode ocorrer?  Questões intrigantes, que procurarei responder a seguir.

  • As Cidades Livres de Essos e as Cidades-estado da Itália

”Era tudo lucro com os príncipes mercadores das Cidades Livres. ”Soldados de especiarias e senhores do queijo”, era como seu pai os chamava… Lorde Tywin sempre vira as Cidades Livres com desprezo. Eles lutam com moedas em vez de espadas, costumava dizer. O ouro tem seus usos, mas as guerras são vencidas com o ferro. ” –  A Dança dos Dragões, Tyrion I e Tyrion II. Braavos

Devido a atual falta de detalhes sobre a história de Valíria, não sabemos se todas as Cidades Livres eram originalmente colônias do império dracocrata ou se no início eram apenas conquistadas cidades fundadas pelos derrotados Ghiscari e Roinares que posteriormente foram reconstruídas e transformaram-se em postos estratégicos do Domínio Valiriano, porém o que sabemos é que Essos foi, em sua maior parte, dominada por Valíria, e que após a sua Perdição a região entrou em colapso, sofrendo um vácuo de poder e entrando em situação politico-militar caótica, vendo ao mesmo tempo a independência e consolidação das Cidades Livres e o início de suas guerras pela supremacia regional no oeste e o surgimento das primeiras hordas dos saqueadores dothraki – os chamados khalasares  dos ”senhores dos cavalos” – no leste.

Esse conturbado período histórico de parte de Essos se assemelha muito a outro período histórico, de nosso mundo, um período que afetou a Europa Ocidental, e principalmente a Itália, um período que sucedeu a derrubada de um império tão ou ainda mais grande, poderoso e influente quanto o de Valíria: o Império Romano.

Se as Cidades Livres eram estratégicas e vitais para a geopolítica de Valíria, a Península Itálica foi o berço e o centro do Império Romano, e após a queda definitiva de Roma em 476 e a Perdição de Valíria ocorrida, aproximadamente, 100 anos antes da Conquista de Aegon I, ambas as regiões sofreram um colapso, entrando em um estado de caos político, militar e econômico, com sucessivas invasões bárbaras e a consequente fragmentação territorial e política na Itália e o estabelecimento das Cidades Livres e a eclosão de conflitos por hegemonia entre elas, um período conhecido como o Século de Sangue ou Anos Sangrentos em Essos, e na nossa história, equivocadamente chamada de Era das Trevas ou Idade Média pela historiografia tradicional.

Nesse período, como já citado, a Itália, a antiga sede e berço da civilização romana, se fragmentou frente a derrocada final de Roma e as consecutivas ondas de migrações e invasões de povos germânicos chamados de bárbaros, essa fragmentação política deu margem, a médio e a longo prazo, para a emergência e o desenvolvimento de novos grandes poderes, de futuras potências regionais e continentais, da mesma forma que o vácuo de poder em Essos ocasionada pela Perdição criou o cenário perfeito para o advento das Nove Cidades Livres e a posterior deflagração de incontáveis e infindos conflitos  por supremacia entre as mesmas.

Esses novos poderes da Itália e, por extensão, da Europa, são as Cidades-estados italianas da Baixa Idade Média e do Renascimento, as análogas das Cidades Livres na história real, tão sofisticadas, opulentas, prósperas, oligárquicas e influentes quanto as suas parelhas em ASOIAF.

As cidades-estados italianas se tornaram oficialmente independentes dos impérios aos quais nominalmente pertenciam – como o Sacro Império Romano-Germânico e o Império Bizantino – entre os séculos XI e XII, e posteriormente prosperaram como financiadoras das Cruzadas e promotoras e difusoras do renascimento urbano e comercial e da Renascença.

Entre elas destacam-se: Veneza, Gênova, Milão, Parma, Turim, Verona, Cremona e Ragusa no norte, Florença, Pisa,     Lucca, Siena e Ancona na região central, Roma – os Estados Pontifícios -,  Nápoles,  Salerno , Trani, Amalfi  e Bari no sul.

Mapa da Itália, em 1494, antes da invasão francesa de Carlos VIII, que deu início as Guerras Italianas.

Além da profunda herança cultural romana, elas também partilhavam influências gregas difundidas pelos bizantinos, assim como, muito provavelmente, as Nove Cidades Livres compartilham de influências culturais de povos derrotados pelos valirianos, como os Ghiscari e os Roinares, num fenômeno ”imperial” de absorção cultural do derrotado que o poeta romano Horácio eloquentemente descreveu atestando a assimilação da cultura helênica por parte da antiga Roma:

”Graecia capta ferum victorem cepit et artes / Intulit agresti Latio. A Grécia subjugada superou o seu feroz vencedor e introduziu as artes no agreste Lácio ”. Horácio, Epístolas.

Esse processo de assimilação cultural possivelmente também ocorreu com Valíria em relação aos povos por ela vencidos, como o fato de que, muito antes de Valíria emergir como potência, após o descobrimento de dragões  e seus ovos em Quatorze Chamas, há cerca de cinco mil anos antes da Conquista, o Império Ghiscari ter tido a supremacia em Essos e provavelmente seu império basear-se no sistema do escravismo – que até hoje é mantido por suas suas ex-colonias na Baía dos Escravos -, e que posteriormente, com a ascensão de Valíria e a gradual queda de Ghis, os antes pacíficos valirianos, agora transformados em senhores dos dragões, em nobres e poderosos ”dracocratas”, terem adotado o mesmo sistema escravista dos Ghiscari, e que atualmente vigora na maior parte de Essos, inclusive nas Cidades Livres, que apesar de alegarem a herança de Valíria, na verdade herdaram uma parte vital e indissociável de sua estrutura política, econômica e social de Velha Ghis, não de Valíria.

As Cidades Livres e as cidades-estado italianas, em sua maioria, se assemelham também na organização política e econômica. Seus regimes políticos são oligárquicos, elitistas e eletivos, sendo que algumas têm como ”autoridades máximas” príncipes, triarcas, arcontes, senhores do mar ou duques, senhores e doges, cujos papéis são nada mais que simbólicos, tendo em vista que na prática que as cidades são governadas de facto por famílias aristocratas  e mercantis. Seus sistemas econômicos fundamentam-se no comércio, tanto terrestre quanto marítimo, o ponto forte de ambas.

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Xilogravura de Gênova , Crônica de Nuremberg, 1493.

Muitas das Cidades Livres lutam inconclusivamente por séculos pelo controle de uma área chamada de Terras Disputadas, o que se assemelha as constantes guerras e alianças cambiantes da Itália Renascentista. Os idiomas das Cidades Livres são diferentes uns dos outros, mas são todos derivados do extinto Alto Valiriano, a língua falada por sua ex-metrópole, o que é análogo à forma como as línguas românicas ou neolatinas se proliferaram ao longo de alguns séculos na Europa após a queda do Império Romano de língua latina.

Assim como as Cidades Livres, cada cidade-estado italiana era mundialmente conhecida uma especialidade, por áreas econômicas ou produtos específicos em que se destacavam, por exemplo: Milão era famosa por suas armas e armaduras, Veneza – a mais poderosa talassocracia antes do colonialismo e do neocolonialismo – por sua forte indústria de construção naval e Florença por seus bancos e banqueiros, sendo o maior centro financeiro da Europa  entre os séculos XIV e XV.

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Xilogravura de Milão, Crônica de Nuremberg, 1493.

Mas, ao contrário das Cidades Livres, as cidades-estado da Itália medieval e renascentista ao mesmo tempo em que mantinham vivos o legado cultural tanto grego quanto romano, em muito se diferiam da antiga Roma, elas impulsionaram as Cruzadas e o renascimento urbano e comercial da Europa entre os séculos XII e XVI,  criaram o sistema bancário, fizeram florescer a Renascença na península Itálica, destarte, catapultaram a Europa para a Era moderna, agindo como mediadoras, intermediárias, entre o que erroneamente acostumamo-nos a chamar de Idade Média e a Modernidade – bem como a Igreja Católica -, ao passo que tal processo de revolução de ideias, de transformação cultural, não ocorreu no contexto das Cidades Livres em Essos, e por que? Porque isso não se fez e talvez nem se fará necessário.

Mapa da Florença renascentista, Francesco Rosselli.

Mapa da Florença renascentista, Francesco Rosselli.

Martin opera uma inversão completa: Valíria, ao contrário de Roma, era uma superpotência do Leste, oriental, que também ao contrário de Roma, exerceu e ainda exerce grande influência cultural no continente oposto, o Ocidente, Westeros. As antigas Grécia e Roma, Constantinopla, as Cidades-estado da Itália e a Igreja Católica edificaram as bases do mundo ocidental e o levaram a evolução cultural e tecnológica que por fim adiantariam o Ocidente em relação ao Oriente após séculos de atraso em relação a dinastias chinesas, califados e sultanatos islâmicos e impérios asiáticos, ao passo que mesmo que embora, evidentemente, as Cidades Livres sejam mais avançadas e modernas em contraponto a Westeros, isso não se deu por mérito delas, mas por obra e legado das civilizações anteriores, de Valíra, dos Roinares e de Ghis.

Pintura retratando Veneza, Canaletto (1697–1768).

Pintura retratando Veneza, Canaletto (1697–1768).

Mesmo sem termos detalhes de sua história ao nosso alcance, se analisarmos bem, o estado cultural, social e político-econômico das Nove Cidades Livres pouco ou nada mudaram nos cerca de quatro séculos desde a Perdição, ademais do fato de cada uma delas, salvo Bravos, supostamente, alegarem serem as legítimas herdeiras de sua extinta metrópole imperialista, Valíria, e guerrearem continuamente umas contra as outras em virtude dessa alegações de herança, lutando em sucessivos conflitos inconclusivos e intermináveis em busca da hegemonia na região, para lá desses litígios sem fim, pouco mudou desde suas independências.

”Francamente, as Nove Cidades Livres são mais parecidas do que elas gostam de admitir. Elas contratam os mesmos soldados, para lutarem as mesmas guerras, para os mesmos governantes, e eles são ricos, sejam eles magísteres frios, arcontes, ou o que preferires. Quando um khalasar se aproxima, eles dão o mesmo tributo para evitarem o mesmo saque. ” – Jorah Mormont nos extras “Histories & Lore” do Blu-ray da segunda temporada de Game of Thrones.

Volantis continuou sendo uma potência imperialista e escravocrata cujo governo é uma república oligárquica, Bravos prosseguiu em sua política expansionista disfarçada de ”antidracocracia” e antiescravismo, e o mesmo ocorreu com as demais Cidades Livres, todas tem em si parte da glória morta de Valíria, todas tem em si o legado dessa antiga civilização, todas continuaram, de certa forma,  com as tradições, costumes e práticas da extinta metrópole, e devido a essa perpetuação com poucas alterações e sem fim da mesma estrutura milenar – escravocrata, exceto em Bravos – oligárquica, opulenta, elitista e mercantil – entraram em um aparente estado de estagnação, algo que não é fácil de se perceber, mas é compreensível para uma série de livros de alta fantasia em que um ”império” se mantém como a potência dominante por aproximadamente 4600 anos, afinal, se trata de uma saga de fantasia, não de romances históricos, embora muito de seus aspectos lembrem romances históricos.

Aparentemente, George R.R. Martin, não limita suas inversões históricas irônicas a referências e elementos da Guerra das Rosas – como expus anteriormente -, ele estende isso a outros períodos, acontecimentos, personagens e fatos, o fato de as Cidades Livres perpetuarem o legado cultural valiriano sem a necessidade de um ”Renascimento”, de uma revolução cultural, ao passo que na Itália e na Europa em geral isso fez necessário, é uma inversão interessante, assim como outras que veremos a seguir.

  • Volantis e Constantinopla: O fracasso das herdeiras imperiais  

”Velha Volantis, primeira filha de Valiria, matutou o anão. Orgulhosa Volantis, rainha do Roine e senhora do Mar do Verão, lar de nobres senhores e adoráveis senhoras do mais antigo dos sangues. E deixemos de lado as matilhas de crianças nuas que corriam as vielas gritando em vozes estridentes, ou os espadachins à porta das tabernas afagando os cabos das espadas, ou os escravos de costas dobradas e caras tatuadas que corriam por todo o lado como baratas. Poderosa Volantis, a mais grandiosa e populosa das Nove Cidades Livres. Antigas guerras tinham despovoado boa parte da cidade, porém, e grandes áreas de Volantis tinham começado a afundar-se de novo na lama sobre a qual se erguiam. Bela Volantis, cidade de fontanários e flores. Mas metade dos fontanários estavam secos, metade das piscinas estavam estaladas e estagnadas. Trepadeiras em flor projetavam gainhas de cada rachadura nas paredes ou pavimentos, e jovens árvores tinham criado raízes nas paredes de lojas abandonadas ou de templos sem telhados… ” – A Dança dos Dragões, Tyrion VI, Capítulo 22. 

Volantis

Ambas são as sedes de influentes religiões: Volantis da fé em R’hllor, Constantinopla da Igreja Ortodoxa Oriental, abrigando os representantes máximos das mesmas: o Sumo Sacerdote de R’hllor em Volantis e o Patriarca Ecumênico em Constantinopla, bem como os seus maiores pontos de culto: o Templo do Senhor da Luz em Volantis, que Tyrion descreve como sendo cerca de três vezes maior que o Grande Septo de Baelor em Porto Real, e a famosa Catedral de Hagia Sophia em Constantinopla, construída durante o reinado de Justiniano.

 Tanto Volantis quanto Constantinopla perpetuaram os sistemas políticos e as culturas de suas ex-metrópoles, com a segunda mantendo e consolidando a estrutura imperial e o Direito romano enquanto no Ocidente esses pilares de Roma eram destruídos e reduzidos a pó pelos povos germânicos, a primeira continuando com o sistema político eletivo e oligárquico de Valíria, mas inovando no estabelecimento de uma nova porém limitada instituição: a Triarquia.

”- É algum dia sagrado? – É o terceiro dia das eleições deles. Duram dez. Dez dias de loucura.  Passeatas sob a luz de  tochas, discursos, pantomimimeiros, menestréis e dançarinos, espadachins em duelos até a morte, pela honra de  seus candidatos, elefantes com os nomes dos candidatos à triarquia pintados do lado. Esses malabaristas estão se apresentando por Methyso. – Lembre-me de votar em outra pessoa. – Tyrion lambeu a gordura dos dedos. Embaixo, a multidaõ jogava moedas para os malabaristas. – Todos esses pretensos triarcas oferecem espetáculos de  pantomimeiros? – Fazem qualquer coisa que lhes tragam votos – disse Mormont. – Comida, bebida, espetáculos… Alios enviou uma centena de escravas jovens e bonitas para as ruas, para angariar votos. – Voto nele – decidiu Tyrion. – Traga-me uma escrava! – Elas são para os volantinos nascidos livres com propriedades suficientes para votar. Há poucos mas precisosos votantes a oeste do rio. – E isso dura dez dias? – Tyrion riu. – Vou gostar disso, embora três reis tenham dois sobrando. Estou tentando me imaginar governando os Sete Reinos com minha doce irmã e meu bravo irmão ao meu lado. Um de nós mataria os outros dois dentro de um ano. Estou surpreso que esses triarcas não façam o mesmo. – Poucos tentaram. Talvez sejam eles os espertos, e nós os tolos. Volantis é conhecida por sua cota de tolices, mas nunca sofreu com um triarca menino. Sempre que um louco é eleito, seus colegas o restringem até que seu ano cumpra o cruso. Pense nos mortos que ainda viveriam se Aerys, o Louco tivesse dois reis companheiros para repartir o governo. Em vez disso, ele teve meu pai, Tyrion pensou . – Algumas das Cidades Livres pensam que somos todos selvagens do nosso lado do mar estreito – o cavaleiro prosseguiu. – Ou então acham que somos crianças, chorando pela mão forte de um pai. ”- A Dança dos Dragões, Tyrion VII .

Constantinopla ao pôr do sol, Félix Ziem (1821-1911).

Constantinopla ao pôr do sol, Félix Ziem.

A Triarquia de Volantis é uma clara alusão ao Consulado, cargo de poder máximo no sistema político da República de Roma, onde dois cônsules eleitos a cada ano entre os patrícios, as famílias nobres e ricas de Roma, dividiam o poder entre si, inviabilizando a concentração do poder nas mãos de uma única pessoa ou de um grupo político-social à parte do status quo oligárquico, e também aos dois Triunviratos em fins da mesma República, onde três grandes líderes e generais dividiram os territórios da República em três partes para assim as administrarem de forma independente e em conjunto, ao mesmo tempo.

Os dois primeiros sistemas, da Triarquia e do Consulado, são decorrências de sociedades que desprezam o acúmulo e concentração de poder em uma única pessoa ou grupo isolado, o que leva a contradições que põe em xeque a própria estrutura política de Volantis e de Roma como repúblicas oligárquicas, contradições que chegam ao ápice com o assassinato conspiratório de Caio Júlio César no Senado Romano em 44 a.C. e com a execução pública do triarca Horonno durante o Século de Sangue em Volantis, ambos acusados de tramarem tornar-se governante vitalícios, perpétuos, porém a inversão irônica se faz de novo presente: César foi vítima de uma conspiração de patrícios, Horonno foi executado publicamente, mas ambas as manifestações contra o poder centralizado constatam o ódio dos antigos romanos – da República – e dos volantinos, por qualquer coisa ou vestígio que lembre uma monarquia.

”A praça era dominada por uma estátua de mármore branco de um homem sem cabeça em uma armadura exageradamente ornada, montado em um cavalo de batalha arreado da mesma maneira. – Quem poderia ser? – perguntou-se Tyrion. – Triarca Horonno. Um herói volantino do Século do Sangue. Foi reconduzido como triarca todos os anos por quarenta anos, até que se cansou das eleições e se declarou triarca por toda a vida. Os volantinos não ficaram contentes. Ele foi condenado à morte logo depois. Amarrado entre dois elefantes e rasgado ao meio. – A estátua parece ter perdido a cabeça. – Ele era um tigre. Quando os elefantes chegaram ao poder, seus seguidores vieram em alvoroço, arrancando as cabeças das estátuas daqueles a quem culpavam por todas as guerras e mortes… ” – A Dança dos Dragões, Tyrion VI, Capítulo 22. 

Volantis

Como Volantis, Constantinopla se considerava a nova versão do império que a fundou, a ”Nova Roma”, a legítima herdeira do poder, autoridade e glória da civilização romana após a sua queda derradeira, Volantis, desde a Perdição, declara a si mesma e ao mundo ser a herdeira de Valíria e recorre as armas para continuar a sua obra expansionista, bem como como o chamado Império Bizantino – um termo que só surgiu no século XVI, os habitantes do Império Romano do Oriente se referiam a si mesmos como romanos – durante o longo, conturbado e simultaneamente próspero e glorioso reinado do imperador bizantino Justiniano I, entre os anos 527 e 565, muitas vezes chamado de ”O Último dos Romanos”.

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Mosaico retratando Justiniano e sua corte, Basílica de San Vitale em Ravena, Itália. 547.

Justiniano I possuía o mesmo espírito imperial e visionário de Constantino, Otaviano Augusto, Caio Júlio César e Alexandre, o Grande, e que em ASOIAF vemos manifestar-se em personagens  como Aegon, o Conquistador e Daeron I, o Jovem Dragão. Justiniano ansiava pela restauração integral do Império Romano, sonhava com a reunificação das partes oriental e ocidental do antigo império, e para concretizar esse sonho moveu inúmeras guerras contra os reinos bárbaros dos vândalos no Mediterrâneo e no Norte da África, contra os ostrogodos na Itália e na Dalmácia e os mouros na Espanha.

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Império Bizantino durante o reinado de Justiniano ((527 – 565).

As chamadas Guerras de Justiniano I são análogas aos conflitos de Volantis contra as demais Cidades Livres durante o Século de Sangue, com grandes líderes militares, como o célebre triarca Belicho, e o excepcional comandante  bizantino Belisário, obtendo sucessivas e decisivas vitórias, mas mesmo assim, sendo derrotados no fim, Belicho devorado por gigantes – segundo o livro ”A Vida do Triarca Belicho” – e Belisário por desentendimentos com o imperador e a investida de novos poderes em ascensão.

”A cultura bizantina encarna o conceito de longue durée do historiador francês Fernand Braudel : o que sobrevive às vicissitudes, às mudanças de governos, à tendências modernas ou melhorias tecnológicas, uma herança permanente que tanto pode aprisionar quanto inspirar. ” – Judith Herrin em Byzantium: The Surprising Life Of A Medieval Empire.

Por fim, o projeto imperial de Justiniano fracassou, as conquistas de seus brilhantes generais Belisário e Narses, que temporariamente reunificaram o Império, foram rapidamente perdidas nos anos após sua morte , quando os lombardos invadiram a Itália no oeste em 568 e os povos árabes, incitados pela ascendente mensagem do Islã, iniciaram suas velozes conquistas no leste em 632, tomando mais da metade dos territórios governados por Constantinopla.

A campanha expansionista de Volantis foi igualmente um fracasso total, um grande desastre em termos diplomáticos e político-militares. Quando no quinto livro começamos a nos aprofundar na história das Cidades Livres, o Jovem Griff nos dá uma excelente aula sobre a história de Volantis, ilustrando fielmente as dimensões da mal sucedida empreitada expansionista da pretensa Nova Valíria:

”Volantis é a mais antiga das Nove Cidades Livres, a primeira filha de Valíria…  Após a Perdição os volantinos se consideraram herdeiros do Domínio e legítimos governantes do mundo, mas estavam divididos sobre como conquistar esse domínio. O Sangue Antigo era a favor da espada, enquanto os comerciantes e agiotas defendiam o comércio.  Na medida em que disputavam o controle da cidade, as facções ficaram conhecidas como tigres e elefantes, respectivamente. Os tigres dominaram por quase um século após a Perdição de Valíria. Por um tempo tiveram sucesso. A frota volantina tomou Lys, o exército capturou Myr, e por duas gerações as três cidades foram governadas de dentro das Muralhas Negras. Isso acabou quando os tigres tentaram engolir Tyrosh. Pentos entrou na guerra ao lado dos tyroshinos, juntamente com o Rei da Tempestade westerosi. Bravos forneceu aos exilados lisenos uma centena de navios de guerra, Aegon Targaryen voou de Pedra do Dragão no Terror Negro, e Myr e Lys se levantaram em rebeliões. A guerra devastou as Terras Disputadas e libertou Lys e Myr do jugo volantino. Os tigres sofreram outras derrotas também. A frota que enviaram para reclamar Valíria pereceu no Mar Fumegante. Qohor e Norvos quebraram o poder volantino no Roine quando as galeras de fogo lutaram no Lago Adaga. Do leste vieram os dothrakis, expulsando os camponeses de seus casebres e nobres de suas propriedades, até que sobrassem apenas grama e ruínas desde a floresta de Qohor até a cabeceira do Selhoru. Depois de um século de guerra, Volantis estava quebrada, na bancarrota e despovoada. Foi quando os elefantes se levantaram. Eles governam a cidade desde essa época. Em alguns anos, os tigres elegem um membro da triarquia, noutros, não, mas nunca mais do que um, então os elefantes governam a cidade há trezentos anos. ” – A Dança dos Dragões,  Tyrion IV, Capítulo 14. Mons_Lactarius

O que tanto Constantinopla quanto Volantis não perceberam na época de suas guerras reivindicatórias pelo legado imperial de suas ex-metrópoles é que o centro de poder estava lentamente se deslocando, migrando para o leste – e não para o oeste pretendido e desejado por Justiniano -, no caso de Bizâncio, para o Oriente Médio, com a intensificação das investidas dos sassânidas a territórios bizantinos e o limiar da propagação de uma nova e inspiradora religião monoteísta nos desertos da Península Árabica: o Islamismo, e se transferindo para Westeros no caso de Volantis, que teve uma amostra disso quando teve sua oferta de uma aliança estratégica com Aegon I por este recusada e posteriormente com o mesmo se virando contra ela em meio a guerra.

A divisão político-partidária de Volantis também pode ser outra alusão a história bizantina e ao reinado de Justiniano: no ano 537 ocorreu uma violenta revolta em Constantinopla, a chamada ”Insurreição de Nika”, deflagrada no Hipódromo da capital, local em que tradicionalmente o público manifestava suas posições políticas, onde o povo comparecia em massa e havia uma rivalidade mortal entre duas facções político-esportivas: os Azuis, de tendência conservadora e católico-ortodoxa, ligados á aristocracia fundiária, e os Verdes, monofisistas ou simpatizantes do monofisismo, que representavam os interesses dos artesãos e comerciantes. Os imperados tinham por hábito comparecer as competições, mantendo um contato direto com seus súditos, muitas vezes através de diálogos acalorados. Os soberanos costumavam declarar sua preferência por uma ou outra equipe, cujos chefes eram por eles nomeados.

Subestimando o poder dessas forças, Justiniano tentou suprimi-las, porém as duas facções se uniram e ergueram-se em revolta em pleno Hipódromo, condenando o despotismo do imperador. A rebelião foi sufocada por Belisário e Narses, mas Justiniano quase foi deposto, algo que não ocorreu graças as habilidades político-diplomáticas de sua esposa, a imperatriz Teodora.

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Imperatriz Teodora, 1887, Jean-Joseph Benjamin-Constant.

Os partido político volantino dos Tigres evoca os Azuis, o dos Elefantes os Verdes, os primeiros são expoentes da aristocracia, dos grandes proprietários e das famílias nobres e antigas, os segundos representam as camadas sociais ascendentes, dos comerciantes, artesãos e  prestamistas.

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Imperatriz Teodora e seu séquito, Basilica de San Vitale, Ravena.

Voltando a questão da herança valiriana e romana, quando o tutor de Jovem Griff, Haldon Meiomeistre, lhe pergunta que lição tiramos da história volantina, ele sensatamente responde: ”Se quer conquistar o mundo, é melhor ter dragões”, o que nos leva a questão do início do texto: serão as Cidades Livres verdadeiras herdeiras de Valíria? Se não, há outros candidatos para tal posto?

A sábia resposta de Jovem Griff tem uma profundidade maior do que aparenta: todos os poderes dominantes da história, todos os impérios e grandes civilizações, possuíam um trunfo, desenvolveram um ou vários recursos para alçar-se a tal posição, efetuaram mudanças de paradigma, usando uma adaptação do conceito criado por Thomas Kuhn: Roma tinha suas Legiões, uma sólida e organizada estrutura administrativa e um poder civilizatório sem igual, Valíria tinha sob seu poder o que nunca antes alguém possuíra: dragões. Embora Volantis seja a maior e a mais populosa Cidade Livre, encontramos em Bravos, sua antagonista, um potencial maior para a construção de um ”império” aos moldes de Valíria, mesmo que isso supostamente contradiga as próprias origens da Cidade Secreta.

  • O Enigma de Braavos: o ”império” de boas intenções ou o expansionismo às ocultas?

”As Nove Cidades Livres são as filhas da Valíria de outrora, mas Braavos é o filho bastardo que fugiu de casa. Somos um povo mestiço, os filhos de escravos, prostitutas e ladrões. Nossos antepassados vieram de meia centena de terras até aqui buscando refúgio, para escapar dos senhores dos dragões que os tinham escravizado. Meia centena de deuses veio com eles, mas existe um deus que todos tinham em comum ”. – O Festim dos Corvos, Arya III, Capítulo 34. 

Braavos

 

Braavos já tem uma imagem consolidada, a imagem de uma potência antiescravista, diversificada e plural desde seus primórdios, a reputação de uma Cidade Livre ”antidracocrata”, e por extensão, anti-imperialista, por natureza, devido as suas origens em separado das demais Cidades Livres e sua aparente total desconexão com o legado político-econômico valiriano, é comum a tomarmos como uma espécie de ”império” de boas intenções, como um poder dominante, porém não intervencionista e imperialista, como uma potência com um projeto político contraposto ao da antiga Valíria e a atual Volantis, uma antagonista ao imperialismo valiriano e volantino, porém, será que essa imagem já construída de Braavos se confirma com a análise das instituições e das ações políticas dessa talassocrática Cidade Livre?

Fundada quinhentos anos antes da Conquista por escravos e refugiados do expansionismo valiriano, Braavos se diferencia em quase todos os aspectos das demais Cidades Livres, e é, possivelmente, ao lado de Dorne, a localidade mais liberal e avançada em termos socioculturais e a mais monetária e financeiramente desenvolvida no mundo de ”Gelo e Fogo”.

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O Esplendor de Veneza, Thomas Moran (1837-1926).

Sua origem é semelhante a de Veneza, também fundada por refugiados, mas não do expansionismo de um império, mas de ondas de invasões de povos bárbaros no norte da Itália, entre os séculos V e VIII. Veneza era uma república oligárquica e enriqueceu graças ao comércio com o Oriente, tornando-se uma potência marítima na Baixa Idade Média, dominando a maior parte do Mediterrâneo. 

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Veneza, Crônica de Nuremberg. 1493.

Outras semelhanças com a chamada ”Rainha do Adriático” incluem os fatos de ambas terem sido edificadas sobre uma centena de pequenas ilhas separadas por canais e ligadas por pontes e possuírem Arsenais – que funcionam também como estaleiros e são os centros da supremacia marítima das cidades -, e o poder teoricamente estar em mãos de uma autoridade cujo cargo é perpétuo, mas não hereditário, e sim eletivo – o Senhor do Mar de Bravos e o Doge de Veneza -, mas que na prática é exercido por dinastias comercias. A inversão irônica também se faz presente aqui se observarmos que Veneza era escravocrata, uma das cidades com maior número de escravos de todo o mundo durante a Baixa Idade Média e o Renascimento, o extremo oposto de sua análoga Braavos.

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Veneza , Bolognino Zaltieri, 1565.

Braavos se distingue das demais Cidades Livres devido ao seu multiculturalismo, sua tolerância e pluralidade religiosa, e por ser ferrenhamente, desde seus primórdios, antiescravagista. Mas por trás de toda essa suposta aura benevolente e progressista há duas instituições poderosas e perigosas que fazem Bravos ser a superpotência que é desde o fracasso de Volantis em reconstruir o Domínio Valiriano: A Guilda dos Homens Sem Rosto e o Banco de Ferro de Bravos.

A Entrada para o Grande Canal: olhando do leste, Canaletto, 1744.

As operações tanto dos banqueiros quanto dos assassinos contratados de Braavos em lugares próximos, como as outras Cidades Livres, e distantes, como todos os Sete Reinos de Westeros, nos faz lançar dúvidas na questão do aparente progressismo e anti-imperialismo bravosi, questionar as ”boas intenções” da mais poderosa das Cidades Livres.

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O Grand Canal a partir do Palazzo Flangini, Canaletto, 1738.

Se analisarmos bem, na prática, a política de Braavos, em termos gerais, não se diferencia muito da sua rival Volantis antes da derrota nas guerras dos Anos Sangrentos, porém Braavos intervém, de forma sutil e quase que imperceptível, não apenas na política e na economia das demais Cidades Livres, mas também na situação político-militar dos Sete Reinos de Westeros, como o recente acordo entre o Banco de Ferro, representado pelo emissário Tycho Nestoris, e Stannis, atesta, além do teorizado envolvimento dos Homens Sem Rosto em assassinatos com fins políticos em Westeros

O que diferencia a política exterior de Braavos da de Volantis e de Valíria não são suas aparentes e falsas boas intenções, tampouco seu antiescravismo ou progressismo, mas a sua forma de interferir na política internacional, os seus métodos sutis, furtivos e imperceptíveis de intervir no cenário exterior por meio de suas instituições mais poderosas, instituições que muito provavelmente são financiadas pelo governo braavosi e mantém relações estreitas e profundas entre si.

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O Palácio dos Doges, 1730, Canaletto.

Essas ponderações fazem a crença no anti-imperialismo de Braavos ceder terreno para uma mais plausível política oficial de não-intervenção direta – como a neutralidade bravosi em meio a instável e caótica situação da Baía dos Escravos desde o terceiro livro e se intensificando no quinto, provam -, porém com a existência de um projeto de expansão da influencia político-econômica de Bravos que se daria através de meios indiretos, o que explicaria a aceitação de bom grado dos ávidos banqueiros bravosi da postergação do pagamento das dívidas do Trono de Ferro durante todo o reinado de Robert e a sua exigência de pagamento apenas ocorrendo após a eclosão da guerra civil em Westeros.

  • Extra: Talassocracias e Bancos 

”… O Banco de Ferro de Braavos tinha uma reputação temível quando cobrava dívidas. Cada uma das Nove Cidades Livres tinha seu banco, e algumas tinham mais do que um, lutando por cada moeda como cães em cima de um osso, mas o Banco de Ferro era mais rico e poderoso do que todos os demais juntos. Quando príncipes faltavam com suas dívidas para com bancos menores, banqueiros arruínados vendiam esposas e filhos para traficantes de escravos e abriam suas próprias veias. Quando príncipes deixavam de pagar o Banco de Ferro, novos príncipes surgiam do nada e tomavam seus tronos. ” – A Dança dos Dragões, Jon IX, Capítulo 44. 

Da antiga civilização minoica de Creta, há cerca de 3600 anos, passando pelo Império Ateniense e sua  Idade de Ouro com Péricles, as cidades-estado fenícias e Cartago, as Repúblicas Marítimas da era medieval e do Renascimento até o apogeu dos impérios coloniais holandês e britânico, entre os séculos XVII e XIX, encontramos exemplos de talassocracias que dominaram boa parte do mundo. Em ASOIAF temos Braavos, cujos navios de velas roxas – uma alusão aos fenícios, que também pintavam as velas de seus navios com a cor roxa – são avistados em lugares tão longínquos como Asshai e as ilhas do Mar de Jade.

Além das já citadas semelhanças com Veneza, Braavos possui pontos em comum com Amsterdã, a cidade mais rica do mundo durante a chamada Idade de Ouro Neerlandesa, no século XVII. Centro e baluarte do protestantismo, Amsterdã destacava-se por sua tolerância religiosa, recebendo judeus da Espanha e de Portugal e huguenotes da França como refugiados e aceitando que católicos ali permanecessem, em meio a uma Europa dilacerada por guerras religiosas. Amsterdã também era a sede de uma grande rede de comércio mundial, com navios que iam do Mar Báltico aos oceanos Atlântico e Pacífico.

Uma das principais instituições da Cidade Secreta, o Banco de Ferro de Braavos, com o lema ”o Banco de Ferro obterá o que lhe é devido”, é mais rico e poderoso do que todos os outros bancos das Cidades Livres em conjunto.

O poder monetário bravosi evoca a hegemonia financeira de outra poderosa instituição de outra poderosa cidade-estado, Florença, da Casa de Médici, e do Banco Médici – Banco dei Medici em italiano -, que no século XV era o maior e mais respeitado banco europeu.

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Ilustração de Florença, Crônica de Nuremberg, 1493.

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p style=”text-align:justify;”>Enquanto que entre os vários credores do Banco de Ferro estão os Sete Reinos, com uma dívida acumulada durante o reinado de Robert Baratheon, algo semelhante ocorreu com o Banco Médici, que contraiu uma dívida colossal com a Inglaterra durante o reinado de Eduardo IV, devido à Guerra das Rosas. Em virtude do não pagamento das dívidas inglesas o banco de Florença passou a emprestar dinheiro aos rebeldes Lancaster, assim como recentemente o Banco de Ferro passou a financiar a pretensão de Stannis ao Trono de Ferro… porém a instituição dos Médici faliu em razão de inúmeras dívidas não pagas e a invasão francesa de Carlos VIII em 1494, situação que provavelmente não ocorrerá em Bravos.

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3 Comentários

Arquivado em Baixa Idade Média e Renascimento

3 Respostas para “Cidades Livres: As Cinzas de Valíria

  1. Cristian Almeida

    Melhos post sobre as Cidades Livres que eu já vi na internet! Parabéns! Fiquei tão intrigado com Volantis e Braavos que a vontade que eu tenho é de ir pra europa agora mesmo pra conhecer as cidades que são análogas à elas!! Sem falar que o post valoriza o continente de Essos, que é subestimado pelos leitores!

  2. Rubens

    Parabéns pelo Blog! Conseguistes fazer um raciocínio criativo, e uma comparação muito eficiente com a nossa história de GOT, com certeza acompanharei o seu Blog, uma ótima leitura!
    Abraço!

  3. Sensacional! SENSACIONAL!
    O seu blog cresce a cada dia!
    Gostaria de reblogar no drunkwookieblog

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