Heráclito, Zoroastrismo e o Cristianismo primitivo: uma análise dos fundamentos do culto à R’hllor e sobre sua ascensão em Westeros

”No princípio, haviam dois espíritos primitivos, Gemêos espontaneamente ativos, Estes são o Bem e o Mal, em pensamento, em palavra e em ação.” – Ahunuvaiti Gatha; Yasna 30.3, um dos hinos atribuídos a  Zoroastro. 

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  • Introdução

Das inúmeras e diversificadas religiões presentes no universo da saga, que vão desde a veneração animista e panteísta, com influências dos antigos cultos pagãos célticos e germânicos, aos Deuses Antigos, adorados pelos primevos Filhos da Floresta e depois adotados pelos Primeiros Homens, a com fortes aspectos católicos e medievais Fé dos Sete e a crença dos homens de ferro no Deus Afogado, com influências da mitologia nórdica, até as arcaicas e xamanistas religiões dos dothraki e lhazarenos, provavelmente a mais elaborada,  construída e fundamentada, com uma liturgia e teologia bastante difinidas, e onde há mais margem, espaço, para analogias, conexões e comparações históricas reais seja aquela hegêmonica do outro lado do Mar Estreito, em Essos: a fé no Deus Vermelho, o culto à R’hllor, a religião dos sacerdotes vermelhos, pregada por  Thoros de Myr e principalmente por Melisandre de Asshai em Westeros.

Em uma série de fantasia cujo um dos maiores alicerces é a complexidade psicológia e a ambiguidade moral dos personagens é aparentemente estranho e contradório que nesse universo fantástico uma das religiões com mais destaque, e talvez a mais desenvolvida – no sentido de que é detalhada, definida – teologica e litúrgicamente, seja justamente aquela que tem uma visão de mundo em preto e branco, com as pessoas sendo ou completamente boas, com ações positivas, ou completamente más, com ações negativas, porém é exatamente aí que reside a complexidade dessa série, nas inversões, ironias e desconstruções do senso comum e dos paradigmas da fantasia épica e medieval, ao colocar essa complexa – no sentido histórico e filosófico – religião essosi sob destaque nas páginas dos livros da saga, George R.R. Martin opera uma de suas inversões e desconstruções: em um universo onde há linha entre bem e mal é tênue e não exatamente definida, onde os personagens sempre oscilam entre as fronteiras do que acreditam que é certo e o que é errado, transitando entre seus valores e interesses, onde a dubiedade e a ambilavência imperam, uma das maiores formas de religião é a que possui uma perspectiva completamente divergente e oposta a tudo isso.

A seguir, farei uma análise dos fundamentos do culto a R’hllor e de sua recente difusão e atual ascensão em Westeros, que ocorre principalmente através da pretensão ao Trono de Fero de um controverso, porém emblemático e fascinante personagem, baseada em considerações históricas, filosóficas e teológicas que relacionam-se, se conectam, a essa religião estrangeira aos olhos westerosi, desde a visão de mundo e o pensamento dialético de um filósofo grego da Grécia Antiga e o dualismo cósmico e as doutrinas que constítuiram um enorme legado para a posteridade de uma importante religião da Pérsia Antiga até os primórdios do Cristianismo e sua ascensão no Império Romano durante a Antiguidade Tardia.

  • O Fogo de Heráclito, Melisandre e a harmônia dos contrários 

‘’A noite é escura e cheia de terrores, o dia, luminoso, belo e cheio de esperança. Uma é negra, o outro, branco. Há gelo e há fogo. Ódio e amor. Amargor e doçura. Macho e fêmea. Dor e prazer. Inverno e verão. Mal e bem. Vida e morte. Em toda parte há opostos. Em toda parte há a guerra. ’’ – Melisandre à Davos,  A Tormenta de Espadas, Davos III, Capítulo 25.

‘’A guerra (polemos) é pai de todas as coisas, rei de tudo; de uns fez deuses, de outros homens; de uns, escravos, de outros, homens livres. ’’
‘’O deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, abundância e fome. Toma várias formas como o fogo, quando misturado a especiarias toma o perfume de cada uma’’ – Fragmentos de Heráclito.     

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Heráclito representado na Escola de Atenas, de Rafael Sanzio (1483-1520).

Heráclito de Eféso foi um filósofo pré-socrático que viveu entre os sécs. V e VI a.C., chamado de obscuro e enigmático devido a brevidade e ambiguidade de seus aforismos. Ele via no fogo a fonte, a origem (arché) de todas as coisas e tinha a perspectiva singular e inovadora de um universo em constante devenir, em contínua transformação, cambiante como o curso eterno do fluir de um rio em que não podemos nos banhar duas vezes, pois a cada momento a água muda e nunca somos os mesmos (panta rhei, ‘’tudo flui’’).

‘’Este cosmo, igual para todos, não o fez nenhum dos deuses, nem nenhum dos homens, mas sempre foi, é e sempre será um fogo eternamente vivo, acendendo-se e extinguindo-se conforme a medida. ’’

”O fogo se transforma em todas as coisas e todas as coisas se transformam em fogo, assim como se trocam mercadorias por ouro e ouro por mercadorias”.  

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Heráclito, pintura a óleo de Hendrick ter Brugghen (1588-1629).

Para o filósofo jônico, o mundo era uma eterna luta de contrários (noite, dia, frio, quente, carência, fartura, agudo, grave e etc.) e a guerra, o conflito entre os opostos, era o pai de todas as coisas. Não obstante, para Heráclito, há um Logos, uma razão que tudo ordena, uma lei universal sem que nenhum elemento possa ser considerado superior ao outro, bom ou mau.

”As transformações do fogo: primeiro o mar;  do mar, uma metade terra, a outra, ar incandescente. A terra dilui-se em mar, e esta recebe a sua medida segundo a mesma lei, tal como era antes de se tornar terra.”

”Há só uma coisa sábia: conhecer o pensamento que governa tudo através de tudo.”

”Aqueles que falam com inteligência devem apoiar-se no que é comum a todos, como a cidade (pólis) em suas leis, e mais ainda. Todas as leis humanas nutrem-se de uma única lei divina, que estende seu poder até onde quer, é bastante para todos e tudo, e ainda os ultrapassa.”

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Heráclito, ca. 1630, de Johannes Moreelse (1602-1634)

Ao mesmo tempo em que o universo está em constante mudança, em um fluxo eterno personificado pelo fogo, ele permanece o mesmo, pois se um objeto move-se do ponto A ao ponto B, criando assim uma mudança, a lei subjacente (Logos) continua a mesma, há a unidade na multiplicidade, a harmonia dos opostos.

”Não compreendem como separando-se podem se harmonizar: harmonia de forças contrárias como o arco e a lira.”

”O caminho da espiral sem fim é reto e curvo, é um e o mesmo.”

”O caminho para o alto e para baixo é um e o mesmo.” 

No culto à R’hllor, e com mais enfâse ainda nas frases e asserções de Melisandre de Asshai, percebe-se um discurso semelhante nas formas, mas que contém um partidarismo claro e evidente: se o filósofo efésio enfatiza a harmonia entre os contrários e a vigência de uma lei universal que a tudo rege de forma racional, os fiéis desse culto pregam a primazia, precedência e bondade de R’hllor em contraposição a uma divindade maligna, o Grande Outro, aquele cujo nome não pode ser proferido.

Onde Heráclito vê harmônia e complementaridade, os sacerdotes vermelhos e adeptos da religião essosi vêem um conflito eterno, intrínsico e transcendente onde o bem e a luz devem prevalecer sobre o mal e as trevas.

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Mais ou menos como Platão, com seu apego e fixação pelo Mundo Inteligível, o mundo das ideias, essências e formas, em detrimento do Mundo Sensível, o mundo das aparências, fenômenos e sentidos, Melisandre, os demais sacerdotes vermelhos e os adeptos em geral da emergente religião essosi, encontram no meio do ”tumulto dos contrários” de Heráclito um ideal para se agarrar, um bem distinguível e irrecusável, uma causa, a do Senhor da Luz, do Coração de Fogo, do Deus da Chama e da Sombra – novamente o fogo em destaque, como em Heráclito -, causa cujos reais objetivos ainda nos são desconhecidos.

É nesse partidarismo que busca difundir-se, nessa causa imprescindível, que residem os paralelos e conexões do culto à R’hllor com uma histórica religião da antiga Pérsia: o Zorastrismo.

  •  O Zoroastrismo e seu legado

”…Agora, porém, o Sábio Senhor é quem fala com a língua de seu profeta moribundo: ”Porque Zoroastro Espítama renunciou à Mentira e abraçou a Verdade, o Sábio Senhor agora lhe concede as glórias da vida eterna até o final do tempo infinito, assim como darei esta mesma benção a todos os que seguirem a Verdade.” – Excerto de ”Criação”, romance histórico de Gore Vidal.  

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Faravahar, principal símbolo zoroastrista, representa a união da alma humana com seu criador, Ahura Mazda, a vida eterna.

Provavelmente, o monoteísmo não surgiu nos desertos do Sinai e de Canaã com Moisés e o Exôdo, ele é uma ideia mais antiga, um conceito que remonta aos hinos de Amenófis IV, mais conhecido como Akhenaton – faraó da XVIII dinastia que viveu no séc. XIV a.C. – ao deus solar Aton, que foi adotado como único deus durante seu reinado, onde o politeísmo egípcio, com suas dezenas de centenas de deuses, foi  temporiaramente suprimido. 

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Baixo-relevo retrando o faraó Akhenaton e sua famíllia, incluindo sua esposa Nefertiti, reverenciando Aton, único deus adorado durante seu reinado.

Porém, foi com o surgimento do Zoroastrismo ou Mazdaísmo na antiga Pérsia, há aproximadamente 2.600 anos, que o monoteísmo ganhou força, e segundo alguns historiadores e e teólogos essa milenar religião revelada deixou como grande legado conceitos, ideias e doutrinas que formaram os pilares teológicos e doutrinários de religiões universais e monoteístas como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, que nesse sentido são suas herdeiras. 

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Manuscrito artístico retrando o imperador Dario I em um palácio persa sob o Faravahar.

O historiador britânico-americano Bernard Lewis afirma que o Zoroastrismo foi a primeira religião oficial de um Estado, sendo adotada pelos imperadores da Dinastia Aquemênida, antecipando em mais de oitocentos anos o estabelecimento da aliança Estado/Igreja ocorrido em fins do Império Romano. 

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Zoroastro retratado na Escola de Atenas, de Rafael Sanzio.

Mas quem fundou essa religião? Assim como os fundadores de diversas outras religiões foi uma figura muito obscura, um pensador e profeta da região montanhosa da Média (noroeste do atual Irã) chamado Zoroastro ou Zaratustra, que provavelmente  viveu pouco antes da ascensão do Império Aquemênida (539-331 a.C.), que não por coincidência foi o mesmo período, chamado de Axial Age pelo filósofo alemão Karl Jaspers, em que ocorreu o surgimento ou reforma em simultaneidade de várias outras religiões em outras partes do mundo – com Siddhartha Gautama e Mahavira na Índia, Confúcio e Lao Zi na China e Esdras e Neemias na Judeia -, e que se deu o florescimento da Filosofia no mundo grego com os pré-socráticos e sofistas, incluindo Heráclito -.

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Antigo relevo persa retratando Zoroastro.

Na religião zoroastrista há duas grandes divindades gêmeas que se confrontam: Ahura Mazda ou Ormuzde (Sábio Senhor na linguagem avéstica), o princípio do bem, da verdade e ordem (Asha), e Angra Mainyu ou Ahriman (espírito destrutivo), o princípio do mal, da mentira e desordem (Druj). O antagonismo entre ambos manifesta-se desde a hora da criação. Ormuzde criou um mundo pleno de vida e luz, ao passo que Ahriman criou outro, feito de morte e escuridão.

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Relevo nas ruínas de Persépolis, a capital cerimonial do Império Aquemênida, com o simbólico Faravahar retratado.

Posteriormente Ormuzde criou Gaon, lugar maravilhoso, semeado de rosas e cheio de pássaros com plumas de rubi, Angra Mainyu criou então os insetos nocivos às plantas e aos animais. Na gorda pastagem, obra de Ormuzde, Ahriman fez surgir feras e animais que devoravam a criação útil ao homem. À santidade, Angra Mainyu opôs os maus propósitos e a mentira; a prece,  à dúvida que corrói a fé. Assim, a cada uma das maravilhas que Ormuzde dava aos homens para sua felicidade, Angra Mainyu a combatia por um dom nefasto, e em torno desses dois poderes gravitava uma multidão de espíritos, os quais formavam o exército do bem (Amchaspends, Iazatas, Fravachis) e o exército do mal (Daevas, Drujs, Pairikas ou Peri, Iatus), com o homem tendo o poder de decisão frente os dois deuses.

Os zoroastristas também tinham crenças escatológicas e messiânicas – perdoem o anacronismo do termo -, acreditavam que no futuro haveria uma grande batalha final entre Ormuzde e Ahriman, que em um determinado ciclo de tempo três salvadores sucessivos viriam ao mundo, cada um denominado  Saoshyant (“aquele que trará benefício” na linguagem avéstica) que venceriam as trevas e o mal de Ahriman, então todos os mortos ressuscitariam e seriam julgados, o mundo seria renovado, restaurado, e a humanidade finalmente salva, encerrando o ”tempo da longa dominação”. 

‘‘… Nem sete, nem um, nem cem ou mil. Dois! … A guerra é travada desde o começo dos tempos, e, antes de chegar ao fim, todos os homens devem escolher de que lado se encontram. De um lado está R’hllor, o Senhor da Luz, o Coração de Fogo, o Deus da Chama e da Sombra. Contra ele ergue-se o Grande Outro, cujo nome não pode ser pronunciado, o Senhor das Trevas, a Alma do Gelo, o Deus da Noite e do Terror. A nossa escolha não é entre Baratheon e Lannister, entre Greyjoy e Stark. O que escolhemos é a morte ou a vida. A escuridão ou a luz. ’’ – A Tormenta de Espadas, Davos III, Capítulo 25.  

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Percebe-se então que tanto judeus quanto cristãos e muçulmanos devem ao Zoroastrismo conceitos e doutrinas como o livre arbítrio, o conflito cósmico entre o bem e o mal, a existência de anjos e demônios, crenças escatológicas e soteriológicas como a vinda de um futuro salvador, a última batalha, o Juízo Final, a ressureição dos mortos, a salvação da humanidade e a renovação final do mundo, elementos que em sua maioria também fazem parte das crenças dos adeptos do culto a R’hllor, que também acreditam em um dualismo cósmico no qual o homem tem poder de decisão, em que princípios e forças opostas encarnadas em duas grandes divindades antagônicas confrontam-se.

‘’Todos devemos escolher. Homem ou mulher, jovem ou velho, senhor ou camponês, nossas escolhas são as mesmas. Escolhemos a luz ou escolhemos a escuridão. Escolhemos o bem ou escolhemos o mal. Escolhemos o deus verdadeiro ou o falso… O Senhor da Luz fez o sol, a lua e as estrelas para iluminar o nosso caminho, e nos deu o fogo para manter a noite à distância. Ninguém pode se opor as suas chamas.’’ – Melisandre, A Dança dos Dragões, Jon III, Capítulo 10. Melisandre of Asshai

Outros pontos em comum é que tanto no zoroastrismo quanto no culto a R’hllor o fogo é o principal símbolo da divindade benéfica, o presente que o Senhor da Luz/Sábio Senhor concedeu aos homens, sendo o maior símbolo e elemento litúrgico dos rituais religiosos nos Templos Vermelhos da religião essosi e nos Templos do Fogo da religião persa, onde o fogo ritual é chamado de Atar.

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Jashn-e Sadeh, antigo festival e comemoração zoroastrista celebrado no Irã.

O Zoroastrismo também foi uma grande influência para movimentos e grupos religiosos posteriores, como o gnosticismo e o catarismo. O gnosticismo surgiu no séc. II, na Síria, Egito ou Ásia Menor – os estudiosos ainda debatem sobre a questão de suas origens – era um movimento heterogêneo e diversificado – foi duramente combatido pelos Pais da Igreja, como Tertuliano e Irineu de Lyon, em seus escritos -, mas essencialmente mesclava inúmeras ideias e doutrinas de filosofias distintas, sendo genuínamente um produto do fluxo de ideias e conceitos entre Oriente e Ocidente, durante o auge do Império Romano sob a influência da cultura helenística, como o cristianismo, o judaísmo o politeísmo helenístico – com seus cultos secretos como o Orfismo e os Mistérios de Elêusis – e principalmente o neoplatonismo, todas suas correntes tinham pontos em comum: era uma religião que tinha a busca pela sabedoria (sophia), o conhecimento místico (gnosis) revelador do verdadeiro Deus, como principal meta, e seus adeptos também acreditavam num dualismo que contrapunha duas divindades: o deus verdadeiro, o Deus do bem, do espírito, da alma, do universo imaterial, e o Demiurgo, o deus falso, do mal,  da matéria, do corpo, da  degeneração e corruptibildade.

Já os cátaros (”puros”, do latim Cathari, derivado do grego katharoi), também conhecidos como albigenses, eram uma seita dos sécs. XII e XII no sul da França, eles se opunham radicalmente a centralização e hierarquização da Igreja e ao ócio,  luxo e riqueza do clero e rejeitavam todos os Sacramentos, seus adeptos se autodenominavam como ”Bons Homens” (Bons Hommes) e pregavam o sacerdócio universal, o vegetarianismo, votos de pobreza e o ascetismo, além de também se fundamentarem num dualismo cósmico, acreditando num conflito entre o Deus do Novo Testamento, o deus do bem e do espírito, e o deus do Antigo Testamento, do mal e da carne, o mundo material, sua criação. O catarismo se difundiu em todo o sul e sudoeste da França, tendo a região de Languedoc como centro,  atraindo a atenção do Vaticano, o papa Inocêncio III, após enviar uma missão pontifícia fracassada para eliminar com palavras a heresia – Pierre de Castelnau, o enviado papal, foi assassinado pelos albigenses -, convocou uma grande Cruzada contra os cátaros, conhecida como Cruzada Albigense ou Cruzada Cátara (1209-1229), grandes nobres como o barão inglês Simon de Montfort e os reis Felipe II e Luís VIII da França participaram, e ela resultou na completa e total extinção do catarismo, com destaque para a cidade de Béziers, onde após a quebra do cerco, houve uma carnifica indiscriminada com mais de 200 mil cátaros mortos.

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Representação gótica do início do séc. XIV da Cruzada Albigense contra os cátaros.

Retomando a rigor o tema, paradoxalmente, características importantes do culto a R’hllor não encontram nenhum paralelo na antiga religião persa, mas sim em um de seus herdeiros: o Cristianismo, durante sua difusão no Império Romano e ascensão política a partir do séc. IV, também promovida e ”adotada” por um dos vários pretendentes ao poder em meio a um cenário de crise político-militar, instabilidade, conturbações e uma grande guerra civil…

  • O Universalismo cristão e o Cristianismo no Império Romano 

Inversamente ao zoroastrismo e similarmente ao cristianismo, o culto a R’hllor possui um caráter fundamentalmente universalista e missionário e não é monolítico, existem várias ramificações, interpretações distintas – o discurso e as atitudes dissonantes dos sacerdotes vermelhos desde Moqorro e Benerro a Thoros de Myr e Melisandre ao longo dos livros atestam isso – em contraste com religiões indissociavelmente atreladas a uma cultura específica, como a Fé dos Sete em relação à cultura ândala, os Deuses Antigos em relação aos Primeiros Homens, o Deus Afogado com os homens de ferro e etc – por isso não vemos septões e septãs pregando em regiões fora da zona de influência da cultura ândala, no Sul dos Sete Reinos, ou nortenhos que cultuam os Deuses Antigos tentando converter estrangeiros a sua fé -, os preceitos que os sacerdotes vermelhos difundem em Essos e Westeros tem um propósito de abranger a todos os povos e culturas.

O cristianismo, em seus primórdios, na periferia do Império Romano, era visto e reconhecido como uma mera seita dissidente do judaísmo, mas na verdade tratava-se de uma religião completamente revolucionária em essência e substância, pois era universalista e missionária, ao passo que as religiões monoteístas anteriores, como os próprios judaísmo e zoroastrismo, eram religiões locais, tribais, eram por demais vinculadas as culturas que as criaram, judaica e persa, e por isso não tinham o apelo universal e missionário que o cristianismo, desde os tempos apostólicos, teve, sem distinguir judeus e gentios, romanos, gregos ou bárbaros – o que dava margem a múltiplas interpretações e a formação de ramificações distintas, de seitas, como o gnosticismo, o montanismo, o donatismo, o priscilianismo, o marcianismo, maniqueísmo,  arianismo e etc  – mas isso também não surgiu do nada.

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Mapa representando a difusão do cristianismo durante o Império Romano e após a sua queda, com destaque para a expansão do movimento monástico.

O historiador Bernard Lewis afirma que o universalismo cristão não foi nada mais que a ampliação, o desenvolvimento natural, dos princípios de inclusão das três mais importantes civilizações do ocidente: judaica, grega e romana, nessas civilizações as barreiras culturais não eram insuperáveis, podiam ser cruzadas, ou mesmo eliminadas, entre gregos e romanos o chamado bárbaro seria incluído no mundo através da adoção da língua – grega ou latina – e da cultura greco-romana, podendo adquirir a cidadania romana no Império – como foi o caso de um famoso apóstolo, Paulo de Tarso -, entre os judeus o chamado gentio era admitido em seu mundo pela conversão e a aceitação das leis judaicas, porém a grande diferença entre os princípios de inclusão dessas civilizações e o revolucionário cristianismo é que enquanto os primeiros não procuravam novos adeptos ou cidadãos, mas os aceitavam, os cristãos tinham, e ainda tem, por principal objetivo a conversão, a busca de novos membros.

A inversão presente no caso é que enquanto o cristianismo primitivo foi cruel e opressivamente perseguido pelo Estado romano sob sucessivos imperadores romanos – desde Nero e Domiciano até Aureliano e Diocleciano – durante mais de três séculos, em sua fase inicial de expansão em Westeros o culto à R’hllor já é o perseguidor, ações como a destruição do Septo de Pedra do Dragão e a queima do Bosque Sagrado de Ponta Tempestade evocam o cristianismo já hegemônico no Império, após se tornar a religião oficial durante o reinado de Teodósio I, sendo similar a eventos como a destruição de templos politeístas e sua substituição por igrejas, a extinção dos Jogos Olímpicos e o fechamento da Academia de Atenas. 

Nesse mesmo sentido, ambas as religiões em seu processo de difusão no ocidente – Westeros e Império Romano -, possuem um maior apelo entre as camadas sociais mais desfavorecidas e oprimidas, entre os escravos e a plebe, mas também se chegam a nobreza, entre os membros das cortes – soldados, oficiais e governadores romanos se convertiam ao cristianismo desde o séc. II – e um ponto fundamental, importante: durante o processo de difusão no ocidente encontram patrocinadores, patronos, em um pretendente ao cargo máximo de poder – Imperador romano ocidental, Rei dos Sete Reinos – em meio a um cenário de devastação, crise,  instabilidade e caos político-econômico e militar e de grandes guerras civis: Stannis Baratheon e Constantino, o Grande.

  • Entre Constantino e Stannis Baratheon: patronos de uma nova fé, expoentes de novos paradigmas

”Por este sinal de salvação, eu preservei e libertei a vossa cidade do tirano e restaurei a liberdade.” – Inscrição no Arco de Constantino. 

A Batalha da Ponte Mílvia (1520-1524), de Giulio Romano, Cidade do Vaticano, Palácio Apostólico.

A Batalha da Ponte Mílvia (1520-1524), de Giulio Romano, Cidade do Vaticano, Palácio Apostólico.

Em 293, para facilitar o governo e tornar eficiente a administração do Império, que era vasto demais e estava em crescente crise político-econômica e militar desde o fim do séc. II,  o imperador Diocleciano estabeleceu a Tetrarquia, com dois Augustos e dois Césares dividindo o poder – os primeiros acima dos segundos -. Durante o reinado de Diocleciano, o império manteve-se relativamente estável sob a Tetrarquia, mas em 305 ele abdicou do poder e se retirou da vida pública, o que fez o regime tetrárquico ruir e desembocou em uma guerra civil onde augustos e césares disputavam o domínio do Império.

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Mapa do Império Romano durante o reinao de Diocleciano, representado a Tetrarquia.

Constâncio Cloro, pai de Constantino, era um augusto, e governava a partir da província da Britânia, após a sua morte em York em 306, durante uma campanha militar contra os pictos e escotos, Constantino foi proclamado imperador pelas legiões do pai. Nesse momento estava claro que o Império não subsistiria se permanecesse dividido, afinal haviam seis ”imperadores” reivindicando o poder, era necessário uma centralização do poder, a unificação dos domínios de Roma, e Constantino logo encontrou fortes rivais em Maximiano e no filho deste, Maxêncio, que não reconheciam a sua autoridade.

A disputa seria resolvida através de um complexo jogo de alianças, no qual, pela primeira vez, o cristianismo teve enorme influência. Apesar de que durante o reinado de Diocleciano os cristãos tivessem sofrido uma sanguinária onda de perseguições – chamada de ”Grande Perseguição -, eles já formavam uma importante força. Assim passaram a ser em parte tolerados mesmo por seus maiores inimigos e a atuar mais livremente. Mas foi justamente Constantino quem soube melhor utilizar essa força nascente, apresentado-se como o defensor, o patrono do cristianismo, contra o qual Maxêncio lutava.

Entre os dias 27 e 28 de outubro de 312, os destinos de Constantino, da fé cristã e do Império Romano mudaram para sempre. O candidato a imperador romano ocidental, após batalhas por todo o norte da Itália, estava com seu exército estacionado junto ao rio Tibre, a três quilômetros ao norte de Roma, enquanto que seu rival Maxêncio detinha o poder na capital e preparava-se para a batalha. Os homens de Constantino, cansados, enfrentariam uma força muito maior, que se estendia até as muralhas da cidade desde uma curva do rio, cortado neste ponto pela ponte Mílvia. 

Segundo a tradição, no anoitecer da véspera da batalha Constantino viu uma grande luz em forma de cruz no céu com a inscrição em grego ”In touto nika” – ‘‘In hoc signo vinces” em latim, ”sob este sinal vencerás”  -. Outro relato diz que ele teve um sonho em que viu Cristo com as letras qui e ró, que iniciam o nome de Cristo em grego. Após a visão ou o sonho ele mandou seus soldados fazerem estandartes para a batalha com este monograma e pintou-o nos escudos de seus soldados, provavelmente para captar o apoio dos cristãos em Roma. 

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A Visão da Cruz, ca. 1524, escola de Rafael Sanzio.

Constantino era conhecido por ser um grande general e um comandante experiente e hábil, e a batalha foi vencida. Maxêncio morreu afogado no Tibre e sua cabeça foi cortada, espetada numa lança e levada para Roma. Centenas de seus soldados foram arrastados rio abaixo e outras centenas caíram na água. Mas no anos seguintes, Constantino demostraria que as razões para sua ”conversão” foram puramente políticas. 

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Busto de mármore de Constantino, esculpido no séc. lV, Museus Capitolinos, Roma.

A Batalha da Ponte Mílvia é um dos maiores pontos de viragem da história ocidental, pois foi através dela que Constantino ascendeu ao poder e partir desse momento que o cristianismo passou a ser aceito, tolerado e patrocinado pelo Império. Em 313, Constantino concede plena liberdade de culto aos cristãos por meio do Édito de Milão, em 324, ele conquista a metade oriental do império, sob o pretexto de que o imperador romano oriental, seu outrora aliado Licínio, adotara uma política de perseguição ao cristianismo, reunificando as regiões ocidental e o oriental pela penúltima vez na história. Daí em diante Constantino passou a reinar sozinho, colocando fim ao regime de Tetrarquia e restaurando novamente a unidade do império, cujo centro de gravidade se deslocara para o Oriente, onde o imperador iria fundar em 330, na área da antiga colônia grega de Bizâncio, uma grandiosa capital, Constantinopla, a ”Nova Roma”.

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Estátua de bronze de Constantino em York, Inglaterra, perto do local onde ele foi proclamado Augusto em 306.

Tanto Constanto quanto Stannis são herdeiros políticos de personagens falecidos, Stannis de seu irmão mais velho Robert, Constantino de seu pai, Constâncio Cloro. Ambos foram proclamados titulares dos cargos ambicionados – rei e imperador – em lugares distantes dos centros de poder, na ilha Pedra do Dragão no caso de Stannis e na província romana da Britânia no de Constantino. E os dois tiveram ou ainda tem que enfrentar – no caso do primeiro – um grande número de rivais para alcançar o poder, são um entre vários pretendentes a um trono lutando em meio a um cenário de devastação, instabilidade e caos político-econômico.

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A Batalha da Ponte Mílvia, por Charles Le Brun (1619–1690), Getty Research Institute, Los Angeles.

As religiões emergentes surgiram na história dos dois por intermédio de familiares: Flávia Júlia Helena, a mãe cristã de Constantino, influenciou em sua ”conversão” ao cristianismo em 312, ela é uma santa para católicos e ortodoxos. Stannis foi influenciado por sua esposa, Selyse Florent, em sua ”adoção” do culto a R’hllor. Ambos são os principais promotores, patrocinadores, de religiões que tem seus centros originais no oriente, no leste, – Oriente Médio, Essos – em relação as regiões em que são religiões emergentes –  Império Romano, Westeros – e tanto um quanto o outro alteraram seus estandartes com um símbolo da religião a que se ”converteram”, no caso de Constantino trata-se do Labarum – um monograma de Jesus Cristo, formado a partir das letras gregas Chi (χ) e Ró,(ρ), iniciais de Cristo em grego – no de Stannis as chamas do Deus Vermelho.

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Porém, a meu ver, as principais semelhanças residem no fato de que tanto o Baratheon do meio quanto o imperador romano lutam para estabelecer uma nova ordem política e religiosa em Westeros e em Roma, ao mesmo tempo em que são restauradores, reestruturadores da ordem, ambicionam a centralização do poder e a unificação territorial, possuem ideias e conceitos novos, até mesmo revolucionários: Stannis com seu igualitarismo social, meritocracia, culto a R’hllor e uma espécie de ”direito divino”  monárquico fundamentado na crença de Melisandre e dos Homens da Rainha de que ele é Azor Ahai, Constantino com sua ampla reforma militar que incluía a adesão de bárbaros germânicos – foederati – nas fileiras das legiões, sua tolerância religiosa, favorecimento ao ascendente cristianismo e a transferência do centro de poder do ocidente para o oriente, de Roma para Constantinopla, transição que anunciava uma nova era, a passagem da era do politeísmo para a era do cristianismo.

”Olhe-o, Cavaleiro das Cebolas. Meu reino de direito. Meu Westeros… Essa conversa de Sete Reinos é uma loucura. Aegon compreendeu isso há trezentos anos, quando estava onde nos encontramos agora. Pintaram esta mesa por ordem dele. Pintaram rios e baías, colinas e montanhas, castelos, cidades e vilas francas, lagos pântanos e florestas… mas nenhuma fronteira. É tudo um só. Um reino, para que um rei o governe sozinho.” –   A Tormenta de Espadas,  Davos IVCapítulo 36. 

Fugindo um pouco da temática histórica, existe uma clara divisão de opiniões sobre Stannis no fandom, por ser um personagem não carismático, anti-social, introspectivo, taciturno, moderado, sério, inflexível e estóico ele não atrai tanta popularidade quando comparado a outros personagens, e essa divergência entre os fãs se intensificou a partir das mudanças e alterações que o personagem sofreu na série de TV da HBO.

Porém, isso é o que filósofos chamariam de falso problema, o problema não está em considerar Stannis um de seus personagens favoritos e criticar a sua adaptação na série ou questionar a perspectiva que os fãs do personagem em questão tem dele, desmerecer essa visão que valoriza o personagem e tender a ver com olhos mais abertos e receptivos o Stannis de David Benioff e D. B. Weiss: o real problema a ser elucidado, a pergunta a ser respondida, é saber o que faz existir uma polarização tão grande de opiniões e visões a respeito desse personagem, o que o torna tão relevante, especial e fascinante para os que simpatizam com ele e o que o torna tão questionável e mesmo hipócrita e contraditório perante outros leitores? Aliás, qual o real papel de Stannis na saga, o que ele representa? Creio que as palavras do próprio autor podem ajudar a responder essas perguntas.

”Os homens ainda são capazes de grande heroísmo. Mas eu não acho que necessariamente existam heróis. Isso é algo que está muito presente em meus livros: Eu acredito em grandes personagens. Somos todos capazes de fazer grandes coisas, e de fazer coisas ruins. Temos os anjos e os demônios dentro de nós, e nossas vidas são uma sucessão de escolhas. Olhe para uma figura como Woodrow Wilson, um dos presidentes mais fascinantes da história americana. Ele era desprezível sobre questões raciais. Ele era um segregacionista sulista da pior espécie, aplaudindo DW Griffith e ”O Nascimento de uma Nação”. Ele efetivamente era um defensor Ku Klux Klan. Mas em termos de política externa e da Liga das Nações, ele tinha um dos grandes sonhos do nosso tempo. A guerra para acabar com todas as guerras – o que nos faz rirmos dele agora, mas Deus, era um sonho idealista. Se ele tivesse sido capaz de alcançá-lo, estaríamos construindo estátuas suas de cem de metros de altura, e dizendo: “Este foi o maior homem da história da humanidade: Este foi o homem que extinguiu a guerra.” Ele era um racista que tentou acabar com a guerra. Agora, uma coisa anula a outra? Bem, elas não anulam uma a outra. Você não pode fazer dele um herói ou um vilão. Ele era os dois ao mesmo tempo. E todos nós somos ambos.” – George R.R. Martin em entrevista à Rolling Stone. 

”Uma coisa não anula a outra”, em outra entrevista ele diz algo como ”cada é o herói de sua própria história, o herói de um lado é o vilão do outro”, bem, Stannis é um dos maiores exemplos dessa ambiguidade moral, não é preto ou branco, herói ou vilão, é um personagem cinza, ambivalente, cheio de dualismos, conflitos internos, de oposição de valores e conceitos e etc, e além disso, ele provavelmente também é o maior representante dessa mesma filosofia realista do autor acerca da natureza humana, como a frase abaixo atesta.

”E foi justiça. Um bom ato não lava os maus, e um mau não lava os bons. Cada um deve ter sua recompensa. Você foi um herói e um contrabandista. Aqueles senhores perdoados fariam bem em refletir sobre isso…” – Stannis à Davos, A Fúria dos Reis, Davos II, Capítulo 42.

A concepção de justiça de Stannis pode parecer excessiva e inflexível demais, porque ele a leva à risca, a aplica às últimas consequências, ele é tão justo que sua perspetiva de justiça não tem um pingo de benignidade, pois para ele não existe compaixão, nem há meios termos, nem redenções, fazer o bem é o seu dever e não é por meio dele que se limpa seu nome de um mancha do passado. A clássica imagem da justiça cega,imparcial e impessoal se encaixa perfeitamente com sua concepção, Stannis não é um homem honrado ou bom, tal como foi Eddard Stark, mas sim um homem que busca o bem a qualquer custo, que não se quebranta frente a algumas lágrimas, não lamenta a sorte de condenados, nem sente pena por um desvalido, para ele a lei é a lei.

”Não há na terra criatura que seja, nem de longe, tão aterradora como um homem verdadeiramente justo.” – Varys sobre Stannis, A Guerra dos Tronos, Eddard XVCapítulo 58.

Mas ao mesmo tempo, essa mesma lei, esse mesmo princípio, esse valor que determina que ”um bom ato não lava os maus, e um mau não lava os bons”, sua visão política meritocrática e sócio-igualitária – que pune e premia tanto nobres quanto plebeus, sem distinções – o levou a recompensar Davos, seu melhor e único amigo, e o tornar um nobre e posteriormente o nomear sua Mão do Rei, o levou a trabalhar em conjunto e de forma bem sucedida com Paxter Redwyne durante a Rebelião Greyjoy, o mesmo homem que ele presenciou acampado com pompa e circunstância ao lado de Mace Tyrell liderando o cerco de Ponta Tempestade por mar e terra durante um ano na Rebelião de Robert, princípio que o levou a dizer ”perdoei-lhes sim, estão desculpados, mas não esqueci” sobre os senhores das Terras da Tempestade que lhe traíram em favor de seu irmão mais novo, esse mesmo princípio moral o levou a recusar, ainda que de forma hesitante, os inúmeros pedidos de seus apoiadores e conselheiros – de Melisandre e sua esposa à Axell Florent – para sacrificar Edric Storm, o filho bastardo de seu irmão mais velho, aquele que o rejeitou e tratou mal durante toda a sua vida – e ainda maculou seu leito nupcial com a prima de Selyse -, princípio que também levou-o a abrir os portões da Muralha aos selvagens derrotados na Batalha de Castelo Negro, unindo-se a eles contra o inimigo em comum.

”Eu trarei justiça a Westeros… Cada homem colherá o que semeou, do mais alto dos senhores ao mais baixo rato de sarjeta. E alguns perderão mais do que as pontas dos dedos, garanto. Fizeram o meu reino sangrar, e não me esqueço disso.” –  A Tormenta de Espadas, Davos V, Capítulo 54. 

”Lorde Seaworth é um homem de nascimento humilde, mas recordou-me de meu dever, quando tudo aquilo em que eu conseguia pensar era nos meus direitos. Tinha posto a carroça antes dos bois, disse Davos. Estava tentando conquistar o trono para salvar o reino, quando devia estar tentando salvar o reino para conquistar o trono. – Stannis apontou para o norte – É ali que encontrarei o inimigo que nasci para enfrentar… quanto mais nos sangrarmos uns aos outros, mais fracos estaremos todos quando o verdadeiro inimigo cair sobre nós. Quando os ventos frios se erguerem, sobreviveremos ou morreremos juntos. É hora de fazermos uma aliança contra o nosso inimigo comum.” – A Tormenta de Espadas, Jon XI, Capítulo 76.

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Stannis é um personagem que se for superficialmente analisado, assim como o culto à R’hllor que ele ”promove”, não será plenamente compreendido, sua antipatia, seriedade, inflexibilidade, caráter introspectivo e estóico se vistos sob uma ótica simplista e reducionista resulta em erros de interpretação e visões superficiais do personagem, Martin não criou e escreve personagens simplistas, mas grandes personagens, complexos, densos, ambivalentes e com vários conflitos internos.

”Demônios feitos de neve, gelo e frio. O antigo inimigo. O único inimigo que importa.” –  A Tormenta de Espadas,  Samwell V, Capítulo 78. 

”… É importante que os livros individuais referem-se às guerras civis, mas o título da série nos lembra constantemente  que a  verdadeira questão está no Norte, além da Muralha, e Stannis torna-se um dos poucos personagens a entender totalmente essa situação, é por isso que, apesar de tudo, ele é um homem justo, e não apenas uma versão de Henrique VII, Tibério ou Luís XI.” – GRMM, em antiga entrevista à Amazon. 

Voltando as suas relações com Constantino… Tanto o Baratheon do meio quanto o grande imperador romano usam religiões emergentes, como meios para seus fins, para impulsionar seus projetos e planos políticos, as exploram como elemento agregador e unificador, como força moral e psicológica em tempos de conturbações, divisão e fragmentação polícia, devastação e instabilidade, ambos são essencialmente pragmáticos, suas alianças com essas religiões foram menos religiosas que políticas, onde ambos os lados tinham muito a ganhar, em um acordo com mútuos benefícios.

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Moeda de bronze do reinado de Constantino, representando o Labarum, símbolo cristão.

Ambos apoiam e patrocinam religiões em que eles próprios não acreditam, Constantino só foi batizado em seu leito de morte em 337, durante todo o seu reinado ainda se cunhavam moedas com o símbolo pagão do Sol Invictus, apesar de seu interesse pelo cristianismo manifestado em casos como sua liderança no Primeiro Concílio de Niceia, em 323, ele continuou a ser politeísta na prática por toda a vida, lembrando que o seu Édito de Milão não apenas tornou o cristianismo uma religião aceita e tolerada pelo Estado (religio licita), mas também concedeu liberdade de culto para as demais religiões praticadas em todo o império, Constantino foi um governante tolerante, que respeitava a diversidade religiosa, as perseguições ao politeísmo e o processo que tornou o cristianismo a religião oficial do Estado são obras posteriores, ocorridas quase meio século após sua morte, durante o reinado de Teódosio I, através do Édito de Tessalônica.

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A Visão de Constantino, 1670, escultura equestre de Gian Lorenzo Bernini (1598-1680), Cidade do Vaticano, Palácio Apostólico.

Stannis evidentemente negligencia e despreza as divindades e as religiões, ele poderia ser considerado cético ou mesmo agnóstico, lembrando que acreditar em magia e usa-la a seu favor é algo completamente distinto, que está distante, de possuir uma crença em alguma força divina que opera através dessa magia – seria quase como dizer que Aegon, o Conquistador adorava os antigos deuses de Valíria devido a seus três dragões, e provavelmente, ao que tudo indica, o mesmo ”converteu-se” a Fé dos Sete mesmo antes de desembarcar em Westeros -  esse desprezo e negligência aos deuses e as religiões é uma decorrência direta de um grande trauma de sua infância.

”Deixei de acreditar em deuses no dia em que vi o Orgulho do Vento quebrar-se do outro lado da baía. Jurei que quaisquer deuses que fossem monstruosos a ponto de afogar minha mãe e meu pai nunca teriam a minha adoração. Em Porto Real, o Alto Septão gostava de tagarelar comigo sobre o modo como toda justiça e bondade emanavam dos Sete, mas tudo o que sempre vi foi que ambas eram feitas pelos homens…  Os Sete nunca me trouxeram nem um pardal. É tempo de experimentar outro falcão, Davos. Um falcão vermelho.” – A Fúria dos Reis, Davos I, Capítulo 10. 

Aliás, essa perspectiva anti-transcendente de que valores e princípios como o bem e a justiça são determinados pelo próprio homem colocam a concepção política de Stannis muito próxima ao pensamento de filósofos empiristas e contratualistas como John Locke e principalmente Thomas Hobbes, que também como o Baratheon do meio possuía uma perspetiva pessimista acerca da natureza humana, mas esse é um tema para outro texto.

Outra semelhança notável é que para os Homens da Rainha, os mais leais e entusiasmados dos apoiadores de Stannis, o lema de ordem é: ”Um reino, um deus, um rei”, enquanto que para as legiões romanas e o império em geral a partir de Constantino a regra era: ”Um império, um deus, um imperador”, frase que o Império Bizantino herdou do império romano ocidental.

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Mapa do Império Romano durante o reinado de Constantino.

Historiadores como Edward Gibbon e filósofos como John Stuart Mill foram ferrenhos críticos da figura de Constantino e de sua promoção do cristianismo no Império Romano, o responsabilizando em grande parte pelo declínio e a queda definitiva do império ocidental  devido a sua ”conversão” cristã e pelos rumos centralizadores e opressores que subsequemente o cristianismo tomou, culminando em seu predomínio e hegemonia durante a Idade Média, Stuart Mill chega ao ponto de indagar a questão sobre o quão diferente teria sido a história ocidental e da Igreja se tivesse sido um imperador filósofo e republicano como Marco Aurélio que adotasse o cristianismo, e não um imperador centralizador, militarista e pragmático como Constantino.

Porém, essas críticas são anacrônicas e descontextualizadas, provavelmente se não fosse pela obra e o legado de Constantino o Império Romano Ocidental teria caído muito antes de 476 – diversos outros fatores, sociais, econômicos e político-militares, levaram a queda de Roma, o cristianismo não foi determinante para isso – e o Império Romano Oriental, mais conhecido como Império Bizantino (395-1453), não teria sobrevido por quase mil anos após o colapso de seu corresponde no outro lado do Mediterrâneo, e os rumos que a fé cristã tomou foram consequências de ações posteriores a ele, levadas a cabo por outros imperadores, não por Constantino.

  • Conclusão

Chegando ao fim dessa análise, podemos indagar: então, será que essa difusão e ascensão política do culto a R’hllor  são o prelúdio para um posterior processo de hegemonização e predomínio dessa religião estrangeira em Westeros, substituindo a majoritária Fé dos Sete? É uma possibilidade, mudanças de predomínio religioso já ocorreram várias vezes em Westeros e Essos e mais ainda na história real, porém assim como a ascensão do cristianismo no Império Romano dependeu do sucesso da pretensão e do reinado de Constantino, atualmente a difusão da religião essosi depende bastante – mas não exclusivamente, já que há outro setor de expansão, a Irmandade sem Estandartes atuando nas Terras Fluviais – do sucesso da pretensão ao trono de seu patrono, Stannis, que no atual momento está acampado com seu exército de sulistas e nortenhos em meio a dois lagos congelados a três quilometros de Winterfell, aguardando o ataque das forças de Roose Bolton, em meio a preparação para a batalha ele conseguiu estabelecer uma importante aliança com o poderoso e influente Banco de Ferro de Braavos e enviou Justin Massey a essa cidade livre para angariar recursos e contratar tropas mercenáras… tendo esse contexto em vista, podemos dizer que o caminho do Baratheon do meio não acabou, ele ainda tem um papel a cumprir, e o culto à R’hllor  também.

Por fim, retomando uma das frases aqui destacadas de Melisandre:

”… Há gelo e há fogo. Ódio e amor. Amargor e doçura. Macho e fêmea. Dor e prazer. Inverno e verão. Mal e bem. Vida e morte. Em toda parte há opostos. Em toda parte há a guerra.”

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Anjo da Morte, 1890, de Evelyn De Morgan (1855-1919).

Se analisarmos essa frase, veremos que Martin compõe uma série de pares aproximadamente complementares. De um lado, temos uma lista das seguintes palavras: gelo, ódio, amargura, masculino, dor, inverno, o mal e morte. Do outro: fogo, amor, doçura, feminino, prazer, bem e vida. Há um lado dominado por palavras de sentido triste ou negativo – dor, morte, ódio, amargor e mal – relacionadas a palavras cujo significado é relativo – inverno, gelo -, que estão associadas com a masculinidade. Do outro lado, o feminino, temos a doçura, o prazer, o verão, o bem, o amor e a vida.

Em um lado temos o fogo de Daenerys, no outro, em contraparte, a Gelo de Eddard, uma viva e o outro morto. Também temos o amargurado Stannis e a doce Melisandre sussurrando belas palavras em seus ouvidos, e o angustiado Tyrion e a prostituta Shae. A dor dos Starks do Norte – o inverno está chegando – contrastanto com o prazer e comodidade no Sul dos Lannisters, Tyrells e Martells, a morte dos personagens masculinos – Viserys, Robert, Eddard, Renly, Robb, Oberyn, Quentyn, Tywin, Kevan – em contraponto a vida dos femininos – Daenerys, Cersei, Catelyn, Brienne, Sansa, Ellaria, Arianne -, representado a eterna luta entre Eros e Thanatos conceituada por Freud,  um é o impulso construtivo e criativo,  o instinto da vida, o outro é o impulsivo negativo e destrutivo, mortal, se de um lado temos o prazer, a vida e o fogo, do outro lado há a dor, a morte e o gelo.

 

 

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A Águia Romana e o Dragão Valiriano – Ascensão e Queda

”…Rapinadores do mundo, que depois de devastarem tudo e  não sobrar mais terras, buscam o mar também, ávidos por possuir, se o inimigo é rico, de dominar, se é pobre, nem o Oriente nem o Ocidente lhes saciaram; sós entre todos os mortais, cobiçam com igual amor as riquezas e a pobreza. Arrancar, trucidar, raptar chamam, com falso nome, império, e onde fazem o deserto, paz. ” – Tácito, Vida de Agrícola XXX.

The Course of Empire - Destruction, óleo sobre tela, 1836, Thomas Cole.

O Curso do Império – Destruição, Thomas Cole, óleo sobre tela, 1836.

  • Introdução

Se um especialista político moderno analisasse o cenário internacional do mundo mediterrâneo no séc. IV a.C., época em que Roma iniciou suas conquistas na Itália, dificilmente ele a apontaria como a futura potência dominante, haviam candidatos mais fortes e prováveis, outros povos mais avançados e sofisticados, e apesar disso, o que era improvável ocorreu.

Trezentos anos depois, o historiador Tito Lívio dizia em sua magnum opus: ”Roma caput orbis terrarum est”. Roma é a capital de toda a terra. Palavras escritas durante o fim do primeiro século antes de nossa era, quando a República, o regime político que regera Roma por quase cinco séculos desde a expulsão dos reis Tarquínios e o fim da Monarquia, já havia se extinguido e o Império sido estabelecido por Otaviano Augusto.

E realmente os antigos romanos acreditavam nisso, tinham por firme crença que Roma era o centro do mundo civilizado – isto é, o mundo inteiro, já que o resto do mundo conhecido, mas fora das fronteiras romanas, era desconsiderado -, a refulgente luz que na era de Lívio e Augusto, brilhava intensamente do Oceano Atlântico ao Mar Negro e o Cáucaso, desde as florestas da Germânia aos desertos do Norte da África, em um império com 2.750 mil km de extensão, com uma população estimada por estudiosos modernos entre 45 e 65 milhões de habitantes, mais de um terço da população global da época.

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Diante de tal crença na sua função civilizadora, de tal extensão de poder e influência política, econômica e cultural expressado por esses números, o surgimento das seguintes indagações é inevitável: como e porque os antigos romanos, outrora uma tribo de origens humildes e rústicas, acumularam tanto poder? Como e porque eles alcançaram o topo, chegaram ao posto de maior superpotência da história? Como surgiu a ideia de Roma como a luz do mundo, o centro de tudo o que existia, o ideal romano de cumprir um papel civilizador? E qual a relação de tudo isso com ”As Crônicas de Gelo e Fogo”? Existem referências a história da Roma Antiga na obra de fantasia de George R.R. Martin? Se sim, quais são? E a existência delas indicam algo, revelam o que?

Sim, a meu ver, existem referências a história da Roma Antiga em ASOIAF, inúmeras, algumas evidentes, outras nem tanto. Quanto as demais questões, as abordarei abaixo, tentando fazer um breve resumo da história da Roma Antiga, e posteriormente, estabelecendo conexões, analogias e paralelos entre a ”caput mundi” da Antiguidade e a obra de Martin, especificamente com a Cidade Franca de Valíria e a Casa Targaryen.

  • Breve História de Roma

‘Há aqui – em Roma – a moral de toda a história humana. O presente não é nada mais que uma repetição do passado; primeiro, a Liberdade e a Glória, e quando isso falha, a riqueza, o vício e a corrupção, e por fim, a barbárie. E a História, com todos os seus grossos volumes, não tem nada senão uma página – e aqui é onde ela melhor foi escrita, aqui onde a ostentosa Tirania acumulou todos os tesouros, todos os deleites que a vista, que o ouvido, o coração e a alma, podem apetecer, e os lábios solicitar – Mas chega de falar. Chegai-vos!” – A Peregrinação de Childe Harold, Lord Byron, Canto IV, Verso CVIII.  

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O Curso do Império – A Consumação, Thomas Cole, óleo sobre tela, 1836.

A partir de 2000 a.C., povos indo-europeus, aparentados com os arianos gregos, deslocaram-se para o centro e para o sul da Península Itálica. Esses povos, conhecidos como italiotas ou itálicos, formaram vários núcleos de povoação: latinos, samnitas, úmbrios, volscos e sabinos. Os latinos fixaram-se na planície do Lácio, às margens do rio Tibre, onde praticavam a agricultura e o pastoreio e viviam em comunidades primitivas.

Itália antiga (c. 600 - 300 a.C)

Itália antiga (c. 600 – 300 a.C).

 Na época da colonização latina, Roma, a futura ”Cidade das sete colinas”, era nada mais que um forte militar, construído para evitar a invasão de povos vizinhos. No século VIII a.C., enquanto o nível de vida das tribos itálicas era ainda muito rudimentar, os gregos que começaram a colonizar o sul – Magna Grécia – já apresentavam notável desenvolvimento econômico e cultural, e os etruscos, vindos provavelmente da Ásia Menor, que ocuparam a planície a oeste do Tibre, prosperavam e expandiam sua influência cultural, política e econômica por toda a região.

Competiu a eles a tarefa de transformar Roma de um modesto centro agropastoril em uma grande cidade-estado, cercada de sólidas muralhas, dando a ela uma nova estrutura, empregando novas técnicas, desconhecidas pelos latinos, desenvolvendo atividades tipicamente urbanas, com uma florescente atividade manufatureira e intenso comércio. Contudo, não é possível estabelecer com exatidão em que medida Roma sofreu a influência etrusca. Talvez tivesse sido uma dominação direta  ou então, exercida através de príncipes etruscos. O que se sabe na realidade é que este domínio foi da maior importância para o desenvolvimento da cidade, marcando profundamente suas instituições políticas, civis e religiosas, e também suas atividades artísticas e culturais.

 Até fins do séc. VI a.C., o regime político romano era uma monarquia eletiva e o poder real apresentava caráter divino. O rei acumulava a chefia militar, administrativa, jurídica e militar. A Monarquia foi dissolvida em 509 a.C., com a deposição e expulsão do etrusco Tarquínio, o Soberbo, o último de uma série de sete reis, e de sua família, em uma ação orquestrada pela aristocracia da cidade, os patrícios.  O governo de um único monarca sucumbiu ao poder dos patrícios, que passaram a governar através de dois principais magistrados eleitos anualmente, os Cônsules, e um corpo consultivo, o Senado.  

Longe de ter sido uma oligarquia corrupta, regida por uma aristocracia rica e decadente como muitos acreditam, a República era uma democracia imperfeita, mais ainda reconhecível.  Segundo o historiador grego Políbio – meados do século II a.C. -, a República Romana teria conseguido o equilíbrio ideal entre as instituições políticas monárquicas – as Magistraturas -, democráticas – os Comícios e as Assembleias – e aristocráticas – o Senado.

Nesse período, a cidade de Roma funcionava como uma espécie de ”empresa pública”, enquanto a pequena aristocracia, proprietária de terras, administrava o Estado. A frugalidade, a moralidade, a virtude cívica e o conservadorismo – Mos maiorum – de Cincinato e de Catão, o Censor eram os ideais da arte de governar. Os líderes dispunham-se, bem como seus cidadãos, a abandonar a vida pública e retornar ao campo, após ocupar o poder durante tempos de crise, dessa forma a rotatividade do poder era garantida e nenhum indivíduo poderia exercer autoridade absoluta sobre seus concidadãos.

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Cícero denuncia Catilina, afresco por Cesare Maccari, 1882-1888.

Roma começou sua história como República como pouco mais que uma cidade cercada por inimigos hostis, e pouco capaz de se defender contra o seu próprio rei exilado. Terminou como senhora incontestável do Mediterrâneo e de boa parte da Europa ocidental.

Isso se explica pelo fato de que devido aos romanos sempre estavam em constante estado de guerra, tendo que se defender de povos vizinhos rivais – etruscos, sabinos, samnitas e celtas –  lutando para sobreviver e defender a República, eles adquiriram um alto senso de excepcionalidade, de que eles eram distintos e especiais, e ao mesmo tempo desenvolveu neles um sentimento de bravura e coragem e um caráter militarista e belicoso, o que deu origem a maior força de guerra da história: as Legiões romanas.

Mas antes de marchar para conquistar o mundo conhecido, em 390 a.C. Roma foi sitiada durante sete meses por um exército de gauleses comandados por Brennus que acabou por invadi-la, destruindo-a parcialmente. Nada mais que um pequeno percalço no caminho, durante os próximos oitocentos anos a cidade não seria sitiada, invadida ou saqueada por um exército estrangeiro. Posteriormente ao saque dos gauleses, Roma enviaria suas legiões para fazer isso por toda a Itália e o Mediterrâneo.

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Brennus e sua parte dos despojos, óleo sobre tela, Paul Jamin, 1893.

O expansionismo na Itália inevitavelmente conduziu Roma ao confronto com outras potências em ascensão, lideradas por comandantes brilhantes que se provaram grandes adversários: primeiro, em 282 a.C. os gregos de Tarentum pediram ajuda a Pirro, rei do Épiro, na sua luta contra os romanos, mas mesmo as suas decisivas, porém custosas, vitórias – origem do termo ”vitória pírrica” – não detiveram o impulso conquistador romano. Dez anos depois Roma controlava toda a Itália e desejava expandir ainda mais as suas áreas de influência no Mediterrâneo, o que levou á deflagração de três guerras consecutivas pela hegemonia regional contra outra cidade-estado republicana em plena expansão: a rica, sofisticada e poderosa Cartago.

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Aníbal cruzando os Alpes, detalhe de um afresco c. 1510, Palazzo del Campidoglio, Musei Capitolini, Roma.

Cartago era uma talassocracia de origens fenícias, por isso os romanos chamavam seus habitantes de Punicus ou Poenicus, daí surgiu o termo Guerras Púnicas (264 a.C. – 146). Mesmo a genialidade de generais como Amílcar e seu célebre filho Aníbal Barca – que em uma proeza militar inigualável, transpôs os Pirineus, cruzou o Ródano, atravessou os Alpes, invadiu a Itália, esmagou os romanos em quatro grandes batalhas e ameaçou sitiar Roma durante dez anos com um exército formado por 35 mil homens e 37 elefantes de guerra – não foram o bastante para salvar Cartago, que após a derrota na Batalha de Zama em 202 a.C., teve que pagar grandes somas em indenização e entregar aos rivais todos os seus territórios, e em 146 a.C. foi completamente destruída após um cerco de três anos, com os romanos semeando seu terreno com sal para que nunca mais algo crescesse nos campos da antiga rival.

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Roma e Cartago – As Guerras Púnicas (264 – 201 a.C).

Após o sucesso nas Guerras Púnicas, Roma continuou sua expansão, e lançou-se em conflitos pelo domínio do Mediterrâneo oriental contra os herdeiros de Alexandre Magno, os diádocos, os reinos helenísticos – exs: a Macedônia da dinastia antigônida, o Império Selêucida e o Egito Ptolomaico – e pelo da Europa ocidental contra iberos, celtas e germânicos. Mas os efeitos, as consequências, de tantas conquistas não foram acompanhadas por mudanças políticas e sociais, o sistema republicano, ao mesmo tempo em que fomentou a expansão, não era capaz de administrar tantos territórios, ou seja, Roma era um império em extensão, mas continuava uma cidade-estado em essência…. mas isso não durou.

Logo estouraram guerras civis entre os Populares e os Optimates, os primeiros defendiam alterações radicais no governo e mais direitos para a plebe, os segundos advogavam a manutenção da República e da autoridade do Senado. Os líderes desses grupos eram generais, que com a expansão ultramarina, eram várias vezes reeleitos cônsules e recebiam grandes poderes para solucionar problemas no exterior. Estes generais dependiam da lealdade de suas tropas e sua substancial independência ameaçou a tradição republicana com seu governo corporativo e a rotatividade de indivíduos em altos cargos por curtos períodos. Com o tempo, os generais passaram a simplesmente ignorar a lei, que exigia a deposição de seus comandos ao retornarem ao solo italiano.

Alea iacta est

Alea iacta est

Houveram quatro grandes guerras civis (de 88 a.C. à 30 a.C.), e o ápice delas foi a travessia do rio Rubicão – fronteira entre o território de Roma e as regiões provinciais – por um desses generais: Caio Júlio César em 49 a.C., após oito anos lutando em campanhas pela conquista da Gália. César foi a ponte entre a República e o Império, era um patrício, mas defendia os plebeus, era o líder dos Populares, mas ao mesmo tempo cobiçava a posse de poderes absolutos – tudo o que, desde os primórdios, os romanos odiavam – e se dizia descender da deusa Vênus. Ele lutou contra o seu velho amigo e companheiro de Triunvirato, Cneu Pompeu Magno, um plebeu rico, líder dos Optimates, vencendo a ele e seus aliados do Senado, e sendo recebido com um Triunfo – a maior e mais tradicional celebração militar aos generais romanos vitoriosos – na capital três anos após a travessia do Rubicão.

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O Triunfo de César, detalhe, c. 1484-1492, de Andrea Mantegna.

Em 44 a.C., César foi nomeado Ditador perpétuo – dictator in perpetuum – pelo Senado, o que para grupos da aristocracia da época fazia parte de honras e títulos que objetivavam transforma-lo em rei e divinizá-lo. Os Optimates se reorganizaram, e liderados por  Gaius Cassius Longinus e Marcus Junius Brutus, outrora amigo íntimo e aliado de César, assassinaram-no em pleno Senado Romano nos Idos de Março, e passaram a ser conhecidos como Liberators – libertadores.

A Morte de César, c. 1859-1867, de Jean-Léon Gérôme.

A Morte de César, c. 1859-1867, de Jean-Léon Gérôme.

O filho adotivo e herdeiro de César, seu jovem sobrinho-neto Caio Otávio – que a partir desse momento mudou o nome para Otaviano, pois de acordo com o costume romano, o sufixo -iano indicava a adoção -, seu primo e mais popular comandado, o general Marco Antônio, e seu comandante da cavalaria, Marco Emílio Lépido, uniram forças para enfrentar Brutus e Cassius, o que culminou na Batalha de Filipos em 42 a.C., onde as legiões dos Liberators foram derrotadas e seus líderes se mataram.

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A República Romana – As Guerras Civis (49-30 a.C).

Após Filipos, Otaviano, Antônio e Lépido dividiram o governo da República, o primeiro ficou com Roma e o Ocidente, o segundo com a Grécia e as províncias orientais e o terceiro com as províncias da África e da Hispânia, formando o Segundo Triunvirato, que foi consolidado em 40 a.C. pelo Tratado de Brundisium e com o casamento de Antônio e a irmã de Otaviano, Otávia.

 Mas essa aliança era instável e pouco durou, em 36 a.C. Otaviano afastou Lépido do poder e o exilou, adquirindo mais recursos e territórios. Dois anos depois, Marco Antônio violou o acordo, rejeitando sua esposa Otávia e se casando com sua amante, a faraó do Egito Cleópatra VII, e alterando o seu testamento transferindo o controle dos territórios romanos no Oriente para Cleópatra e seus filhos com a faraó –  as Doações de Alexandria – , o que ocasionou a última das guerras civis da República.

A guerra  foi decidida com a Batalha de Actium em 2 de setembro de 31 a.C., onde a frota de Otaviano comandada por seu maior general, Marco Vipsânio Agripa, venceu as forças combinadas de Antônio e Cleópatra, que no ano seguinte, com a iminente chegada de Otaviano a Alexandria, suicidaram-se.

Batalha de Actium

Pintura barroca representando a Batalha de Actium, por Lorenzo A. Castro, 1672, Museu Marítimo de Greenwich, Reino Unido.

A transição da República para o Império estava completa. Otaviano se tornou o senhor inconteste de todo o mundo romano, e em 27 a.C. o Senado lhe conferiu os títulos de princeps – primeiro cidadão -, imperator – comandante do exército -, pontifex maximus – sumo pontífice -, princepes senatus – chefe do Senado –  e de Augustus – elevado, majestoso, venerável  – , o que o tornava superior aos outros homens, ao mesmo tempo em que lhe eram conferidas prerrogativas religiosas, dando margem a sua deificação após a morte.

A República realizou as conquistas territoriais, coube a Augusto a imensa tarefa de consolida-las, organizar, administrar, criar uma estrutura sólida capaz de governar tantos povos e culturas diferentes espalhados em um vasto Império, o que cumpriu de forma magistral. Ele conseguiu combinar as instituições republicanas com o poder militar personalizado, introduziu reformas de longo alcance – nos impostos, na família e vida social -, acabou com a corrupção local e na administração provincial.

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Augusto de Prima Porta

Enquanto concentrava poder, Augusto permitiu que o Senado, os velhos magistrados e a classe dos negociantes – Ordem Equestre – partilhassem com ele a administração do Império. Assim, na teoria, ”a República foi restaurada” e o governo permaneceu em mãos civis. À custa de perder algumas das liberdades individuais, um governo estável deu  à maior parte do mundo ocidental civilizado cerca de dois séculos e meio de paz e prosperidade, com municipalidades por todas as províncias gozando de considerável independência e com a cultura predominantemente latina do Ocidente complementando o helenismo do Oriente.

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Império Romano – Pax Romana (27 a.C. – 211d.C.).

A dinastia inaugurada por Otaviano Augusto, a Júlio-Claudiana, durou apenas cinquenta e quatro anos após a sua morte, porém, o sistema e o ideal imperial, com todas suas instituições, que ele estabeleceu foi mais perene, sobrevivendo até fins do século IV no Ocidente e até meados do séc. XV no Oriente, –  e de certa, forma, até os dias atuais, como explicarei mais adiante.

A Pax Romana por ele instituída se estendeu de seu reinado até a morte de Marco Aurélio, ”o imperador filósofo”, em 180 de nossa era – ou segundo alguns, até a morte de Septímio Severo em 211 – a despeito de revoltas, deposições e guerras civis, que pouco abalaram o sistema.

O Império atingiu a sua extensão máxima, chegando ao zênite de seu poder e influência, durante o reinado de Trajano, quando se estendia das fronteiras do norte da atual Inglaterra no oeste aos desertos da Mesopotâmia e o Golfo Pérsico no leste, dos rios Reno e Danúbio no norte até à África Mediterrânea no sul. O seu sucessor, Adriano, decidiu acabar com o período das conquistas e recuperar a política de Augusto de consolidar o domínio e controle sobre os territórios.

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Expansão do Império Romano (201 a.C. – 117 d.C.).

O Império foi mantido por uma comunicação confiável  e a paz interna foi garantida pelas legiões. As frotas mantiveram os mares a salvo para a navegação e uma rede de estradas romanas, construídas para possibilitar  a mobilidade das tropas, facilitaram o comércio, as viagens particulares e o sistema postal imperial. O desenvolvimento de um sistema legal único e a utilização de uma língua comum – latim no oeste e grego no leste – ajudaram a manter a unidade. As cidades romanas floresceram por todo o império, com a ajuda de um eficiente sistema de águas e de drenos. A influência e o comércio romanos difundiram-se até a Índia, Rússia, Sudeste Asiático e, através da Rota da Seda, até a China da dinastia Han.

“Roma é a obra mais bela e útil do destino e todo os homens devem a ela se submeter. A História é a mestra da vida, levando os homens a compreenderem o seu destino. Roma é o centro do mundo, e a imposição de seu destino é o destino histórico mundial. ” – Políbio em ”Histórias”.  

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Gravura de Luigi Rossini.

O sucesso do Império foi também o responsável por seu declínio e queda: sua grande extensão contribuiu para seu colapso, exacerbado por lutas pelo poder e pela invasão de tribos migratórias germânicas e das estepes da Eurásia, ansiosas por conquistar terras.

Para facilitar o governo e a administração, Diocleciano instituiu a Tetrarquia em 293, o filho e herdeiro de um dos tetrarcas, Constantino, reunificou o Império em 324, mas transferiu a sua capital para a cidade grega de Bizâncio, que reconstruiu e rebatizou como Constantinopla, o que fez com que o centro do poder se deslocasse para o Oriente, o que fazia sentido, já que antes a capital situava-se na extremidade ocidental de um império no qual a verdadeira riqueza e o equilíbrio populacional se encontravam na extremidade oposta do Mediterrâneo.

Um dos sucessores de Constantino, Teodósio I, ainda sofrendo com os efeitos de um império em crise crescente vasto demais, decidiu dividi-lo após sua morte em 395 entre Ocidente e Oriente para seus filhos Honório e Árcadio, respectivamente.

Roma foi saqueada pelos visigodos em 410 e novamente pelos vândalos em 455, e em 476, Rômulo Augusto, o último imperador do Império do Ocidente, foi deposto pelos hérulos comandados por Odoacro. Mas no leste, o Império Romano Oriental sobreviveria por mais quase mil anos, e mesmo no ocidente tanto o sistema imperial quanto os ideias, as tradições e a cultura dos romanos nunca se extinguiram por completo, sobreviveram e perduram até hoje, como parte inerente do mundo ocidental.

  • Roma Antiga em ASOIAF: relações com Valíria e os Targaryen

”Valíria no auge de seu poder não era nem um reino nem um império… ou, pelo menos, não tinha um rei nem um imperador. Era mais parecida com a antiga República Romana… Em teoria, seu governo incluía todos os “proprietários livres”, ou seja os proprietários nascidos livres. Claro que, na prática, as famílias ricas, bem-nascidas e poderosas na feitiçaria passaram a dominar. ” –  George R.R. Martin em The Citadel, So Spake Martin.

Valyria

Embora atualmente dispomos de poucas informações históricas precisas e detalhadas sobre Valíria – e por extensão, de Essos em geral -, mesmo com o pouco que sabemos, podemos afirmar que a Cidade Franca de Valíria era uma Roma Antiga com porções de magia. Muitos dos aspectos e características da civilização valiriana claramente evocam Roma, tanto em seu período republicano quanto no imperial, bem como muito da história de seus futuros herdeiros, a Casa Targaryen, possuem várias conexões com Roma. A seguir tentarei traçar algumas analogias e paralelos entre elas, observando que, devido a falta – até o momento – de detalhes sobre a história de Valíria, permiti-me teorizar sobre a mesma.

  • Dos rudimentares primórdios à ascensão desenfreada e a hegemonia 

Roma e Valíria tiveram origens que contrastam com seus futuros imperiais, a primeira não passava de uma simples comunidade agropastoril quando do início do domínio dos etruscos sobre ela, a segunda era uma sociedade pacífica formada por pastores de ovelhas até o descobrimento de esconderijos e ovos de dragões em Quatorze Chamas, um anel de vulcões localizado na Península Valiriana, cerca de 5 mil anos antes da Conquista. Tanto o domínio etrusco quanto a descoberta e posterior domação, criação e treinamento de dragões transformaram para sempre as duas civilizações.

Mas o expansionismo de ambas as cidades não surgiu do nada, anteriormente afirmei que a exposição a ataques e as constantes lutas de Roma contra seus vizinhos rivais na aurora da República criaram um senso de excepcionalidade e um caráter militarista e belicoso nos antigos romanos, o mesmo pode ter ocorrido com os valirianos devido aos choques militares com o Império Ghiscari. E ao que tudo indica, os agressores foram os ghiscari, que desejavam possuir os recém descobertos dragões, não os valirianos:

”Cinco vezes a Velha Ghis havia competido com Valíria quando o mundo era jovem, e cinco vezes havia caído, em derrota desoladora. Pois a Cidade Franca possuía dragões, e o Império não. ” – A Tormenta de Espadas,  Daenerys III, Capítulo 27.

”Nossas histórias falam de senhores de dragões da horrível Valíria, e da devastação que causaram sobre o povo da Antiga Ghis. ” –  A Dança dos Dragões,  Barristan IV, Capítulo 70. 

Old Ghis and Valyria

As sucessivas guerras de Valíria contra Ghis ao mesmo tempo em que são análogas as Guerras Púnicas, são uma inversão delas também, pois enquanto Ghis foi o primeiro grande obstáculo a hegemonia valiriana em Essos, Cartago foi a última grande resistência contra a supremacia romana no Mediterrâneo Ocidental, que a partir da derrota final cartaginesa, passou a ser chamado de Mare Nostrum pelos romanos.

E tanto Cartago quanto Ghis eram civilizações mais antigas que as recém emergentes Roma e Valíria, a primeira tinha origens como colônia fenícia da cidade-estado de Tiro – por isso o nome Qart-Hadast, que significa ”Cidade Nova” – no séc. IX, a segunda era um império antigo que dominava grande parte de Essos enquanto os valirianos eram humildes pastores de ovelhas, como bem nos lembram os descendentes de Velha Ghis:

‘A Antiga Ghis dominava um império quando os valirianos ainda andavam fodendo ovelhas. ” – Kraznys mo Nakloz, A Tormenta de Espadas, Daenerys II, Capítulo 23.

Dido building Carthage or The Rise of the Carthaginian Empire.

Dido constrói Cartago ou A Ascensão do Império Cartaginês, óleo sobre tela, William Turner, 1815.

A Velha Ghis teve um destino extremamente similar ao de Cartago, durante a última das guerras contra seus rivais, os valirianos derrubaram suas muralhas, transformaram as ruas e edifícios em pó e cinzas com o fogo de dragão, e semearam os campos da cidade com sal, crânios e enxofre, porém as três colônias ghiscari – Astapor, Yunkai e Meereen – e o enraizado sistema escravista permaneceram intocados e posteriormente prosperaram e se consolidaram, provas do inclusivismo e do poder de adaptação valiriano

Não sabemos como e de onde surgiu a ideia dos valirianos de organizarem seu sistema político como uma república e sempre rejeitarem instituições monárquicas – rejeição que eles legaram as suas colônicas, as futuras Nove Cidades Livres – , mas não é absurdo teorizar que Valíria devia lealdade aos ghiscari – tal como os Romanos da Monarquia deviam aos etruscos -, sendo possivelmente essa a origem do conflito após a descoberta dos dragões, com os valirianos não entregando aos seus ”senhores” esses seres monstruosos e mágicos.

Do sexto milênio – época dos conflitos entre Valíria e Ghis – até 700 anos antes da Conquista, quando Valíria entrou em confronto com os Roinares, há uma grande lacuna na história, sem informação alguma. A expansão valiriana para a costa oeste de Essos os levou ao conflito com a civilização roinar, onde um grande líder militar, que considero análogo a Aníbal Barca, tentou deter os valirianos: Príncipe Garin, o Grande, de Chroyane. 

No quarto livro, durante o primeiro POV de Arianne Martell, ele é chamado de ”a maravilha de Roine” e é dito que fez Valíria tremer, porém, assim como ocorreu com Aníbal, os notáveis e brilhantes feitos e esforços de Garin sucumbiram ante a supremacia militar valiriana, e ele, juntamente com seus 250 mil soldados, pereceram no campo de batalha.

Hannibal Barca counting the rings of the Roman knights killed at the Battle of Cannae (216 BC).

Aníbal contando os anéis dos cavaleiros romanos caídos na Batalha de Cannae – (216 a.C.). Mármore de 1704 esculpido por Sébastien Slodtz, atualmente exposto no Museu do Louvre.

A inversão histórica se faz presente novamente aqui. Tanto Aníbal quanto Garin eram admirados e temidos por seus próprios adversários – como as lendas em torno da Maldição de Garin e do Senhor da Mortalha (Shrouded Lord) apresentadas nos capítulos de Tyrion no quinto livro evidenciam -. A travessia dos Alpes e a invasão da Itália por Aníbal ficaram para sempre na memória dos antigos romanos, sendo que sempre que algum desastre ocorria, era costume dizer: ”Hannibal ad portas!” – ”Aníbal está as portas”! – Mas enquanto este pode ser considerado um dos primeiros – ao lado de Pirro do Épiro – grandes adversários militares de Roma, o segundo representou a última resistência organizada visando deter o expansionismo valiriano.

Os roinares, em alguns aspectos, se assemelham aos antigos egípcios, sendo que o Roine, o maior de todos os rios de Essos, considerado sagrado e adorado como a Mãe Roine, é análogo ao rio Nilo, também divinizado pelos egípcios, mas sob a forma masculina – Hapi -, e a sua sociedade onde as mulheres possuem direitos e exercem papéis papéis político-sociais equivalentes aos homens, pode ser comparada a sociedade egípcia: se as mulheres da família real podiam ser faraós, as mulheres roinares e dornesas também podem ser governantes.

Assim como Faraó era um título exclusivo para os soberanos do Egito, Príncipe é um título fora do comum em Westeros e Essos, apenas usado pelos governantes da civilização roinar no passado e atualmente pelos de Dorne – além dos simbólicos governantes de Pentos -. Tanto os roinares como os antigos egípcios tiveram mulheres como seus últimos  governantes independentes: a rainha guerreira Nymeria e a mais famosa faraó, Cleópatra VII.

Princess Nymeria of Ny Sar

Princesa Nymeria de Ny Sar.

O que constitui uma inversão irônica, já que para assegurar o Egito como reino independente, Cleópatra se aliou politicamente e se envolveu amorosamente com dois grandes líderes romanos, primeiramente com Caio Júlio César e por fim com Marco Antônio, mas fracassou, ao passo que Nymeria, na migração a Dorne, casou-se com Mors Martell, forjando uma bem sucedida aliança e promovendo a fusão da linhagem real roinar com os nativos Martell, enquanto no caso de Cleópatra e Marco Antônio, este foi acusado de abandonar a cultura e a identidade romanas e se tornar um egípcio, o que foi um dos fatores que o conduziu ao fim de seu acordo com Otaviano e a posterior guerra entre eles.

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Cleópatra, óleo sobre tela, 1888, John William Waterhouse.

Outro caso de inversão irônica aqui é que enquanto a escrita egípcia era hieroglífica e a última dinastia faraônica, a Ptolomaica (305 a.C. – 30 a.C.), praticava o incesto visando manter a linhagem real pura, no universo de Martin são os análogos dos romanos, os conquistadores do Antigo Egito, os valirianos e os Targaryen, que utilizavam uma forma de escrita hieroglífica e praticavam o incesto.

Também podemos ver na bem sucedida fuga de Essos e a migração roinar para o ocidente em direção a Dorne, liderada por Nymeria, como uma inversão do que se deu com Cleópatra, que após a decisiva derrota naval em Actium, e seu retorno a Alexandria, pretendia fugir para a Índia com seus filhos, o que sobrara de sua frota e os inúmeros tesouros da cidade, ou mesmo como um eco a teoria de que antes das Guerras Púnicas navegadores cartagineses chegaram a um novo e desconhecido continente ao oeste.

Após a vitória sobre os roinares, Valíria dominava a maior parte de Essos, e aproximadamente dois séculos antes da Perdição, estendeu seu Domínio para a a costa leste de Westeros, colonizando uma pequena ilha no Mar Estreito, onde construíram um castelo, e a nomearam Pedra do Dragão, o posto mais ocidental do Domínio, que passou a ser controlado por uma das menos importantes e poderosas das 40 famílias dominantes de Valíria, a Casa Targaryen. Era o auge da civilização valiriana – período de seis séculos que podemos chamar de Pax Valiriana -, mas logo sucedeu a sua queda.

  • A Perdição de Valíria e a Queda de Roma

”Uma grande civilização não é conquistada de fora até que tenha destruído a si mesma por dentro. A causa essencial do declínio de Roma estava em seu povo, sua moral, sua luta de classes, seu comércio deficiente, seu despotismo burocrático, seus impostos sufocantes, suas guerras de consumo. ” – Will Durant, César e Cristo, A História da Civilização, Volume III.  

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O Curso do Império – Desolação, Thomas Cole, óleo sobre tela, 1836.

O declínio e o colapso do Império Romano foi um processo lento que durou mais de três séculos – reinos e nações existiram por menos tempo -, causado por inúmeras determinantes, que vão desde o fim do expansionismo territorial e a consequente crise do escravismo até a falência da estrutura militar e o abandono da rígida moral e cívica romanas em favor da valorização do luxo e da opulência decorrente das interações com o Oriente e etc, ao passo que a destruição da civilização valiriana foi rápida, abrupta e devastadora. Ela ocorreu em escala monumental, assim como a de Roma, mas enquanto a queda desta foi determinada tanto por fatores externos quanto internos – políticos, militares, econômicos, sociais e  culturais -, Valíria foi literalmente varrida do mapa devido a um cataclismo de grandes proporções, avassalador, relembrado até hoje tanto em Essos quanto em Westeros.

O que nos remete aos grandes símbolos de Roma e de  Valíria – ambas associadas direta ou indiretamente a cor vermelha, a cor do poder, da soberania, a cor do deus Júpiter para os romanos – :  enquanto a queda do voo da ágil e leve Águia romana foi  gradativa, o queda do voo do monstruoso e pesado Dragão valiriano foi imediata, terrível e impactante. No quinto livro, Tyrion dá uma amostra do que foi a Perdição:

”Estava escrito que, no dia da Perdição, cada colina em um raio de oitocentos quilômetros tinha se partido, enchendo o ar com cinzas, fumaça e fogo, chamas tão quentes e famintas que até os dragões no céu foram engolidos e consumidos. Grandes fendas se abriram na terra, engolindo palácios, templos, cidades inteiras. Lagos ferveram e se tornaram ácidos, montanhas explodiram rocha derretida a trezentos metros de altura, nuvens vermelhas  fizeram chover vidro de dragão e o sangue negro dos demônios, e, no norte, o solo se fragmentou e desabou, e o mar feroz invadiu tudo. A cidade mais orgulhosa do mundo se foi em um instante, seu fabuloso império desapareceu em um dia, e as Terras do Longo Verão queimaram, afogaram e ruíram. Um império construído com sangue e fogo. Os valirianos colheram a semente que plantaram. ” – A Dança dos Dragões,  Tyrion VIII, Capítulo 33.

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Apesar de a Perdição evocar a maior catástrofe natural da história da Roma Antiga, a erupção do Vesúvio em 79, o seu nível de destruição foi muito maior, se assemelhando mais a chamada Erupção minoica, que extingui os minoicos ou minoanos da ilha de Creta, a primeira civilização europeia.

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A Destruição de Pompéia e Herculano, John Martin, c. 1821.

É significativo apontar o fato de que nada – exceto as lendárias estradas – sobreviveu como memória material de Valíria, nenhum templo, fórum, ponte, aqueduto, terma,  biblioteca, Arco do triunfo, muralha, palácio e etc, ao passo que de Roma temos tudo isso, além das fontes históricas documentadas pelos próprios romanos – que como os antigos egípcios, adoravam registrar a própria história -, o que de Valíria também nada restou, tornando difícil o conhecimento exato de sua história, o que é inverso ao que se dá com Roma.

O laureado historiador australiano Geoffrey Blainey reflete sobre a civilização romana e as várias razões de sua queda em ”Uma Breve História do Mundo”:

”Até que ponto ia o poder da civilização romana? Roma herdara muito dos gregos, mas não possuía tanta criatividade quanto a Grécia. Os romanos estavam mais preparados para a guerra do que os gregos e tiveram mais sucesso ao impor o primeiro componente fundamental de uma civilização: lei e ordem. Roma criou uma vasta zona de livre comércio, um mercado comum, e por um longo período manteve suas fronteiras em relativa paz, pelo menos para os padrões da história humana. Os romanos moldaram o que ainda é chamado de Direito Romano, o sistema legal adotado pela maioria dos povos da Europa e da América do Sul. Havia entre eles, provavelmente, os melhores engenheiros do mundo até aquela época, responsáveis pela construção de aquedutos impressionantes, que forneciam às cidades um abastecimento seguro, e de estradas que duraram séculos.

Saque de Roma pelos visigodos em 24 de agosto de 410, por Joseph-Noël Sylvestre

Saque de Roma pelos visigodos em 24 de agosto de 410, por Joseph-Noël Sylvestre.

Por que o Império Romano veio a decair? Essa é uma das questões fascinantes da história e admite uma combinação de respostas que vão do envenenamento por chumbo na capital e exaustão do solo no interior até a ascensão do cristianismo. Os hunos e outros invasores tiveram certo peso, mas seus ataques foram bem-sucedidas em parte pela fragilidade da resistência. As causas da decadência foram internas. É quase certo que a questão mais importante – e de mais difícil compreensão – seja: por que que o império durou tanto tempo? Ascensão e a decadência constituem o padrão normal das instituições humanas; é mais fácil subir do que permanecer no topo. ” 

Essa reflexão de Blainey também é adequada para a aplicarmos a Valíria: por que o Domínio durou tanto tempo – aproximadamente 4900 anos – ? Valíria e Roma, não obstante a crueldade exibida em vários momentos de suas histórias, possuíam características inclusivas, agregadoras e unificadoras, ambas as cidades, em suas marchas em busca de conquistas, adquiriram, absorveram e adaptaram a sua forma tradições, conceitos e valores alheios, mesmo e principalmente de povos derrotados. Mais do que impérios desumanos e famintos por recursos e  terras, Roma e Valíria eram ideias, ideais que se mantiveram vivas após suas quedas e subsistem até hoje, nos dois mundos.

  • Símbolos e Lemas

A Águia era era o animal sagrado de Júpiter, deus supremo do panteão romano, e o símbolo-mor das Legiões, o seu estandarte – chamado de Aquila – imprescindível que dava moral aos legionários, incentiva o seu espírito de luta e bravura e os lembrava constantemente de seu papel e ideal civilizador, pois se a águia era o maior dos animais, voando acima de tudo e de todos e os observando, os romanos eram os senhores do mundo conhecido, a frente de todas as demais civilizações.

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Para os valirianos e o seus herdeiros Targaryens, o Dragão era mais que um símbolo moral e político, era uma arma de destruição em massa empregada em suas guerras, um símbolo funcional.

Enquanto a Águia representava o poder e a força de Roma, a sua superioridade cultural, política e militar sobre os demais povos, o Dragão também o fazia, só que de forma mais direta e violenta.

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Centurião supervisionando a construção da Muralha de Adriano, óleo sobre tela, William Bell Scott, 1857.

Se o lema de Roma era ”Senatus Populusque Romanus” – ”O Senado e o Povo de Roma” -, o dos herdeiros políticos de Valíria é ”Fogo e Sangue”, o primeiro lema reflete o caráter nacionalista, conservador e republicano da Roma Antiga, os tempos em que Roma era uma República democrática onde a estabilidade política e a rotatividade do poder eram garantidas, já o lema Targaryen possui uma alta conotação belicista, militarista e imperialista, evocando suas origens valirianas e o legado político que eles continuaram em Westeros.

Aliás, o próprio nome Targaryen é uma clara evocação dos Tarquínios, a dinastia de reis etruscos que reinou sobre Roma em seus primórdios, antes da República.

  • A Casa Targaryen e o mito da Fundação de Roma 

Após a ascensão de Augusto ao poder, ele encomendou a poetas como Virgílio e historiadores como Tito Lívio a escrita da versão oficial da história de Roma, uma versão que mostrasse que desde o princípio Roma estava predestinada as conquistas e a glória. Virgílio, inspirado pelos épicos poemas homéricos, escreveu a epopeia Eneida, onde constrói conexões entre Roma e a mítica Tróia.

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Eneas foge de Tróia incendida, Federico Barocci, 1598.

Segundo essa versão, que se tornou a tradicional, Roma foi fundada por Rómulo, filho do deus da guerra Marte e da vestal Reia Sílvia e um descendente direto de Eneas – filho de Anquises e da deusa Vênus -, um príncipe troiano que fugiu da destruição de sua cidade junto com alguns compatriotas e sua família. Uma situação análoga ocorre com os ”párias de Valíria”, não com Valíria propriamente dita: a Casa Targaryen.

O ancestral da Casa Targaryen, Aenar, o Exilado é claramente inspirado em Eneas – Aenar é um variante de Eneas, nome que no original grego significa ”louvado, glorioso, famoso” –  mas há outra inversão: o auto-exílio de Aenar ocorre pouco antes – doze anos – da extinção da maior civilização da história do mundo de ”Gelo e Fogo”, ao passo que, de acordo com o mito, a fuga de Eneas em meio as chamas e ruínas de Tróia marca o início da civilização romana.

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Eneas derrota Turno, Luca Giordano, 1634-1705.

A filha de Aenar, Daenys, a Sonhadora, é a análoga invertida  da princesa Cassandra, prima de Eneas e sacerdotisa de Apolo, filha do rei Príamo e de Hécuba, que como a Targaryen, tinha o dom dos sonhos, premonições e visões proféticas. Ela, como Daenys, predisse a catastrófica extinção de seu povo, mas ao contrário de Cassandra, Daenys teve um destino feliz, se exilou com seu pai em Pedra do Dragão e lá viveu e se casou com seu irmão Gaemon, o Glorioso, enquanto que Cassandra foi capturada e estuprada por soldados gregos após a queda de Tróia, transformada em escrava e levada cativa para a Grécia.

Explorando a analogia, Virgílio queria mostrar, com seu poema épico, que Roma era a herdeira de uma grande civilização perdida, e que por isso, desde seus primórdios, a conquista do mundo mediterrâneo e a glória do Império estavam predeterminados.Talvez os Targaryen também cressem em algo semelhante, sendo a única das 40 famílias nobres dos ”senhores do dragão” sobreviventes  – as Casas Velaryon e Celtigar provavelmente eram, para usar um termo romano, clientes dos Senhores de Pedra do Dragão, devendo-lhes lealdade -, porém não os únicos que alegavam a posse da herança imperial de Valíria – como vimos anteriormente na análise sobre as Cidades Livres -.  Os Targaryen devem ter se sentido como que predestinados a algo maior no século que passaram em Pedra do Dragão antes de empreenderem a Conquista.

  • Aegon, o Conquistador e Otaviano Augusto: Patres Patriae

”Ele aprendeu com Alexandre, o Grande, que depois de ter completado todas as suas conquistas com trinta e dois anos de idade, fracassou totalmente em saber o que fazer durante o resto de sua vida, pelo que Augusto se espantou por Alexandre não ter considerado como uma tarefa maior pôr em ordem o império que ele havia ganhado do que apenas conquistá-lo. ” Plutarco em ”Obras Morais e de Costumes”

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Se Augusto era o legítimo herdeiro de Caio Júlio César, personificou os ideais  imperiais cesarianos e fundou o Império Romano, Aegon I Targaryen foi o clímax da herança valiriana legada a Casa Targaryen e o unificador de Westeros. Se o primeiro teve que lutar em guerras civis contra uma série de pretendentes a senhor do mundo romano para se tornar o primeiro Imperador,  o segundo invadiu um continente estrangeiro divido em sete nações independentes, governadas por sete longevas dinastias, conquistou seis delas, extingui três das sete Casas dominantes, elevou outras três ao poder, e se instituiu como primeiro rei de Westeros unificado, sendo nesse período que o termo ”Sete Reinos” foi cunhado.

”Aegon esteve um dia onde estou agora, olhando para esta mesa. Pensa que lhe chamaríamos hoje Aegon, o Conquistador, se não tivesse tido dragões? ” – Stannis à Davos, A Tormenta de Espadas,  Davos V, Capítulo 54.

”Aegon, o Conquistador, trouxe fogo e sangue a Westeros, mas depois deu-lhe paz, prosperidade e justiça. ” – A Tormenta de Espadas, Daenerys VI, Capítulo 71.

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Aegon I e Balerion, a ambição sem limites de um e o poder de fogo do outro unificaram seis dos Sete Reinos.

Apesar do cognome de Aegon I, a meu ver, o seu perfil, como o de Augusto, era mais a de um eficaz  planejador, organizador e administrador do que o de um grande general ou comandante, por isso, tanto Aegon quanto Augusto compensavam essa debilidade com seus melhores amigos e maiores apoiadores e auxiliares: Orys Baratheon e Marco Vipsânio Agripa, ambos generais e chefes militares de reconhecida capacidade e brilhantismo, ambos de origens não tão notáveis: se Orys era o irmão bastardo de Aegon, Agripa era oriundo de uma família plebeia de origens camponesas.

Tanto as maiores vitórias nas guerras de Aegon quanto as de Augusto tiveram participação direta e decisiva de Orys e Agripa: a conquista do Reino das Terras da Tempestade por parte do primeiro, as vitórias nas batalhas de Filipos e Actium, no caso do segundo. Enquanto Orys foi a primeira Mão do Rei da história, Agripa era o ministro da defesa de Augusto, foi várias vezes eleito cônsul e chegou a se casar com a filha do imperador, fazendo parte da linha de sucessão.

Busto de Marcus Vipsanius Agrippa do Fórum de Gabii , atualmente no Louvre, Paris.

Busto de Marcus Vipsanius Agrippa do Fórum de Gabii , atualmente no Louvre, Paris.

Se Aegon partilhava o governo com suas irmãs-esposas, Rhaenys e Visenya, Augusto era muito influenciado por sua terceira esposa, Livia Drusilla, que o auxiliava nos negócios de estado.  Augusto e Aegon são similares também em suas personalidades, com ambos sendo descritos como solitários, austeros e moderados – de acordo com Suetônio e um excerto de The World of Ice and Fire -. Se Aegon era bígamo, Augusto casou-se três vezes.

Ambos transformaram um continente/império fragmentado, desunido, sem uma estrutura política unificadora, em um reino/império unificado, estável e próspero, com um sistema político agregador, sólido e duradouro – a despeito das conturbações inerentes a história -. Ambos criaram e instituíram novos títulos e instituições, ex: Aegon I estabeleceu a famosa e honrada Guarda Real, Augusto estabeleceu a também célebre Guarda Pretoriana.

Busto de Augusto, Musei Capitolini, Roma.

Não à toa ambos são símbolos, ícones, se Aegon, o Conquistador sempre é uma lembrança constante em Westeros, para os romanos Augusto era o modelo a ser seguido pelos imperadores seguintes, sendo que sempre que um imperador era coroado o Senado lhe dizia as palavras: ”Felicior Augusto, melior Traiano”. 

  • AC – After the Conquest, AUC – Ab Urbe Condita

”Os meistres da Cidadela que guardam as histórias de Westeros tem usado a Conquista de Aegon como a sua pedra de toque nos últimos trezentos anos. Nascimentos, mortes, batalhas e outros eventos são datados ou DC (Depois da Conquista) ou AC (Antes da Conquista). ” 

Tanto o calendário romano quanto o westerosi são marcados a partir de grandes acontecimentos políticos, o primeiro a fundação lendária de Roma por Rômulo em 753 a.C. – ab urbe condita, desde a fundação da cidade –  e o segundo é contado a partir do ”fim” da Conquista de Aegon ou Guerra da Conquista, assinalado com a coroação de Aegon I pelo Alto Septão no Septo Estrelado em Vilavelha, dois anos após desembarque de suas forças na Baía da Água Negra.

  • O Império das Ideias – Legado romano e valiriano

”Ao contrário da Grécia clássica, Roma foi uma civilização da lei e da realização física, não de ideias especulativas e criatividade artística. A imposição de suas leis e a incansável ampliação de sua extraordinária infra-estrutura física exigia menos esforço intelectual que energia ilimitada e disciplina moral. ” – John Keegan em ”Uma História da Guerra”.

Ancient Rome

Roma foi a matriz do mundo ocidental, sendo a síntese de todas as civilizações predominantes no Mediterrâneo que a precederam, era uma civilização aberta, receptiva a novas ideias, conceitos e valores, que ela acolhia e adaptava a sua maneira, ao mesmo tempo em que absorvia, era absorvida pela cultura dos povos conquistados, e talvez o maior exemplo desse fenômeno se deu na religião. Durante a República, devido aos intensos contatos comerciais e culturais com os gregos e os reinos helenísticos,  houve uma fusão entre o panteão local, latino, e o grego.

No Império, o culto a deuses estrangeiros como os egípcios Ísis e Hórus, a frígia Cibele, a efésia Ártemis e o persa Mitra, eram aceitos e bastante populares. Durante os primórdios do cristianismo, o imperador Tibério planejou inclui-lo na lista de religiões permitidas  – religio licita – pelo Estado, prova do caráter agregador e inclusivista romano.

Após a Segunda Guerra Púnica, Roma fez com que suas Legiões adotassem muitos dos métodos, estratégias e táticas empregadas por seu inimigo Aníbal Barca.

O que devemos ter em mente é o fato de que os antigos romanos conquistavam povos e nações não com o intuito de destruí-las, extingui-las, mas para inclui-las em seu mundo, o mundo romano, por isso, – apesar de momentos de crueldade e selvageria que eram uma exceção a regra, como o cerco e destruição de Cartago em 146 a.C. e a supressão da  Grande Revolta Judaica entre 66 e 73 A.D. – antes do início das guerras, eles sempre buscavam negociar a rendição dos inimigos, listando os benefícios da civilização, por isso a ideia de que fora das fronteiras de Roma, não existia mundo, só os bárbaros: o que não era romano, não existia.

Isso é a lgo que os valirianos também podem ter sentido em relação a Westeros, o que responde a indagação de Tyrion no quinto livro sobre as razões para a interrupção da expansão de Valíria rumo ao ocidente, em Pedra do Dragão. O que estava para lá das fronteiras valirianas, não existia, na sua visão de mundo.

Os valirianos também tinham facilidade em assimilar tradições, valores e conceitos dos povos conquistados e os adaptar a sua própria civilização, talvez o principal desses conceitos foi o sistema escravista, originalmente do Império Ghiscari. Depois da vitória valiriana, eles adotaram o escravismo como parte fundamental da estrutura de sua sociedade e além disso o empregaram em uma escala massiva, empregando milhares de escravos de diferentes etnias nas minas das Catorze Chamas. Essa facilidade na assimilação cultural e o poder de adaptação, como parte da herança valiriana, posteriormente contribuiu para a aceitação e consolidação dos Targaryen como dinastia em Westeros, também garantido devido a seus vários casamentos com famílias de origens não-valirianas – desde os Arryn e os Baratheon aos Martell -.

O sistema imperial romano também era a síntese de conceitos anteriores: o ideal de Alexandre, o Grande de unificar e combinar povos e culturas distintas e a organização burocrática do Império Aquemênida. Os antigos romanos viam o conquistador macedônio com admiração e fascínio, tal como o Ocidente vê Roma desde sua queda, tal como em seus dias Alexandre, o Grande via a Pérsia Aquemênida, um império vasto, altamente organizado, com língua, leis e moeda comuns, estradas ligando as cidades mais importantes – a Estrada Real Persa, que ligava Susa a Sardes, foi a precursora de estradas romanas como a Via Appia.

O ideal imperial alexandrino e a estrutura de governo aquemênida foram grandes influências para  Roma,  e tanto os Pais Fundadores dos EUA no séc. XVIII quanto os britânicos com a ascensão de seu império ultramarino no XIX buscaram inspiração na República Romana.

Há mais de quinze séculos Roma deixou de ser um império no Ocidente, mas desde sua queda muitos tentaram faze-lo renascer pelos mais variados motivos, desde Justiniano, Carlos Magno e Otto I na Idade Média até Napoleão, Mussolini e Hitler na Idade Contemporânea.

Em Essos e Westeros, a disputa pela herança imperial de Valíria não é tão intensa quanto foi na história ocidental pós-romana. Entre as Nove Cidades Livres reina um estado de guerra estática – onde não há nada de novo no front -sem vencedores nem vencidos -, com o status quo sendo preservado desde o fracasso de Volantis nos Anos Sangrentos, em Westeros, os mais improváveis – já que eram uma casa menor – herdeiros de Valíria foram depostos do poder e seu(s)  último(s) remanescente(s) dificilmente irão recupera-lo no futuro.

Sob muitos sentidos, a Roma Antiga e a Cidade Franca de Valíria foram o ápice da genialidade e do esforço humano, elas eram as expressões tanto dos aspectos positivos quanto negativos do homem, a violência, a crueldade e a barbárie estão lá, bem como a diplomacia, o conciliamento e a pacificação.

Existem padrões na história humana, guerras de grandes proporções geralmente precedem longos períodos de paz, o caos sempre precede o estabelecimento da ordem, Roma e Valíria, longe de terem sido meros monstros imperialistas, foram os maiores representantes desses padrões. Nos antigos romanos encontramos os fundamentos da nossa civilização, assim como boa parte dos povos e culturas do universo de ASOIAF encontram suas bases em Valíria.

Seus legados, o Império das Ideias, permanecem incólumes, isso atesta-se nos idiomas, na política, na arquitetura, na área militar, no Direito, na religião e etc, as ideias romanas está lá, como eternos memoriais do quão longe a humanidade pode chegar e, mesmo assim, cair… tal como Ícaro com suas asas caiu no mar e Faetonte em sua carruagem caiu do céus.

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Entre a Rebelião de Robert, a Guerra dos Cinco Reis e a Guerra das Rosas: da monarquia descentralizada e a crise dinástica à instauração de uma nova ordem política

”A anarquia, o horror, o medo, o saque desenfreado virão morar aqui, passando o nosso país a ser chamado o novo campo de Gólgota e depósito de crânios. Se levantardes casa contra casa, nascerá a divisão mais desastrosa que jamais viu este país maldito. Evitai estes males, retirando o vosso apoio; se não, os vossos filhos e os filhos destes, mesmo com voz lassa, vos gritarão aos túmulos: Desgraça!” – A Tragédia do Rei Ricardo II, Ato IV, Cena I, William Shakespeare.

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  • Introdução

Ricardo II foi o último rei da Inglaterra da linha principal da Dinastia Plantageneta, iniciada em 1154 por Henrique II – após uma guerra civil de 19 anos conhecida como ”A Anarquia” -, seu brasão de armas pessoal exibindo um veado coroado – conhecido como The White Hart – provavelmente foi a inspiração para os estandartes das Casas Durrandon e Baratheon. Ele foi deposto do poder em 1399, após 22 anos de um reinado impopular e hostilizado pela nobreza, pelo seu primo, Henrique Bolingbroke, o primeiro rei da Casa de Lancaster – Henrique IV – e morreu cativo em Pontefract Castle no ano seguinte, vítima de fome ou de um assassinato.

Richard II

Tanto o destronamento de Ricardo II na Inglaterra do fim do séc. XV, quanto o de Aerys II, o Rei Louco, nos Sete Reinos de Westeros em fins do terceiro século depois da Conquista, lançaram as bases, a longo prazo, das posteriores grandes guerras civis que abalariam seus reinos, pois as deposições desses reis acabaram com o equilíbrio de poder e romperam com as principais linhas das dinastias reinantes, porém tanto Henrique IV quanto Robert Baratheon, tinham, legalmente, direito ao trono: ambos eram primos dos reis que depuseram, Robert era Targaryen pelo lado paterno, assim como Henrique IV era Plantagenta também pelo lado paterno, sendo assim, ao mesmo tempo em que há uma certa continuidade dinástica em seus reinados, suas revoltas bem sucedidas abriram caminho para as lutas pelo trono que adviriam no futuro.

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Porém, mais do que meras disputas dinásticas por tronos, todas as guerras civis que aqui serão abordadas tem por causa fundamental a falência do sistema político feudal tanto da Inglaterra do século XV quanto dos Sete Reinos de Westeros, monarquias fracas, descentralizadas e excessivamente dependentes dos autônomos vassalos, da nobreza, que mantém exércitos próprios ao passo que as monarquias não dispõem de forças militares independentes e permanentes e são completas reféns de seus vassalos.

 Abaixo tentarei fazer um resumo da história da Guerra das Rosas e a seguir tratarei de algumas das inúmeras referências a esse conflito ao longo dos livros de ASOIAF, das possíveis inspirações e analogias às aparentes inversões que o  autor da saga, George R.R. Martin, promove na história e na trama de seu fantástico universo.
        
  •  A Origem das Casas de Lancaster, de York e de Beaufort

Para entendermos melhor as causas da Guerra das Rosas temos que analisar a genealogia da dinastia Plantageneta. Eduardo III (1327-1327), o sétimo rei da dinastia, teve vários filhos com sua esposa Filipa de Hainault, e quatro deles são importantes: Eduardo, o Príncipe Negro, seu herdeiro e pai de Ricardo II, Lionel de Antuérpia, 1.° duque de Clarence, John de Gant, 1.° duque de Lancaster, pai de Henrique IV, e Edmund de Langley, 1.° duque de York.

Para eles, Eduardo III arranjou casamentos estratégicos com herdeiras inglesas e criou os primeiros ducados ingleses: Cornwall, Clarence, Lancaster, York e Gloucester. Seriam os descendentes destes duques que desafiariam uns aos outros na subsequente disputa pelo trono. John de Gant seria o fundador da Casa de Lancaster devido a seu casamento com Blanche de Lancaster, e seu filho com sua amante  Katherine Swynford, John Beaufort, o fundador da Casa de Beaufort. Edmund de Langley seria o fundador da Casa de York, e seu filho Ricardo de Conisburgh se casaria com Anne Mortimer, a filha mais velha de Roger Mortimer, conde de March, neto de Lionel de Antuérpia e herdeiro presuntivo de Ricardo II. Conisburgh seria executado por traição em 1415, devido a seu envolvimento no Southampton Plot, e seu filho Ricardo de York, se tornaria seu herdeiro.
  • Breve resumo                

“E aqui eu profetizo: que a querela de hoje, que esta facção estendeu até o jardim do Templo, enviará tanto da Rosa Vermelha quanto da Rosa Branca, milhares de almas à morte e a noite eterna. ” – Henrique VI, Parte 2, Shakespeare.

Battle of Barnet

O conflito surgiu da oposição de grande parte da nobreza, liderada por Ricardo, duque de York – também chamado de Ricardo Plantageneta –  ao conturbado e desastrado reinado de Henrique VI, neto de Henrique IV, um rei inepto, fraco, manipulável  e mentalmente instável que alternava períodos de extrema benevolência e insanidade, que na verdade era uma marionete de sua rainha consorte francesa, a ambiciosa e agressiva Margarida de Anjou, e de seus ministros da Casa de Beaufort.  A autoridade de Henrique era contestada por Ricardo de York, que era filho de Ricardo, conde de Cambridge e Anne Mortimer, o que o tornava descendente de Eduardo III tanto pelo lado paterno quanto pelo materno: sua mãe era bisneta de Lionel de Antuérpia e seu pai era neto de Edmund de Langley, o dava a ele e a sua família uma pretensão ao trono superior ao da Casa de Lancaster.

Essa oposição foi intensificada com a derrota inglesa para os franceses na Guerra dos Cem Anos  (1337-1453), que fez  o rei sofrer um colapso mental catastrófico e tornar-se completamente inconsciente de tudo o que estava acontecendo ao seu redor – uma doença que ele provavelmente herdou de seu avô materno, Carlos VI da França. York, como  um líder respeitado e um político habilidoso, foi chamado para servir no Conselho de Regência e nomeado regente como Lorde Protetor do Reino em 27 de março de 1454, excluindo a rainha e os Beaufort do poder.

Margaret of Anjou

Nesse período, York ganhou aliados muito importantes: Richard Neville, conde de Warwick – que seria futuramente conhecido como ”the Kingmaker”, o ”Fazedor de Reis” – seu sobrinho por afinidade, o magnata mais poderoso e influente e o nobre mais rico da Inglaterra, e o pai de Warwick e seu cunhado, Ricardo Neville, conde de Salisbury. York tentou conter a violência causada por várias disputas entre famílias nobres, sendo a principal delas a longa disputa e rivalidade Percy-Neville, famílias que no futuro conflito apoiariam lados opostos da guerra.
”Se a insanidade de Henrique foi uma tragédia, sua recuperação foi um desastre nacional” – R. L. Storey em The End of the House of Lancaster. 
O rei recuperou a razão em janeiro de 1455 e precisou de pouco tempo para reverter as ações de York:  os Beaufort  foram restaurados em seu favor, York foi demitido do cargo de Protetor e afastado da corte, enquanto a rainha Margarida  emergia como a líder de facto dos Lancastrians. Ricardo, cada vez mais desiludido e frustrado – temia ser preso por traição – por fim, recorreu as hostilidades armadas em março de 1455.
A Primeira Batalha de St.Albans resultou na incontestável vitória de York e na captura do rei louco, que durante uma crise de demência nem mesmo tentou fugir. Ricardo depôs Margarida do poder, a isolando com o marido, e foi novamente nomeado Protetor do Reino.  Por algum tempo houve paz, mas esta paz foi apenas temporária, os problemas que causaram o conflito logo ressurgiram, especialmente a problemática questão de que se Ricardo ou o ainda pequeno filho de Henrique e Margarida, Eduardo de Westminster,  iria suceder ao trono.

Os Lancastrians, comandados por Margarida de Anjou, recomeçaram o conflito com mais violência em 1459. York, sua família e partidários foram forçados a fugir do país, porém o maior aliado de Ricardo, o proeminente e poderoso Warwick, invadiu a Inglaterra a partir de Calais e Henrique foi recapturado na Batalha de Northampton . York retornou ao país em 1460 e pela terceira vez se tornou Protetor, mas foi dissuadido de reivindicar o trono com a decretação do Act of Accord pelo Parlamento, que mantinha Henrique VI no trono enquanto este vivesse, mas fazia com que os filhos de Ricardo – Eduardo, Edmund, George e Ricardo – o herdassem.

Margarida e os nobres Lancastrians ​​reuniram suas forças no norte da Inglaterra, e quando York  marchou para o norte para suprimi-los, ele, seu segundo filho Edmund e Salisbury, o pai de Warwick, foram mortos na Batalha de Wakefield em dezembro de 1460, e a cabeça de York foi exibida nas muralhas de sua cidade natal e homônima com uma coroa de papel.

O exército Lancastrian avançou para o sul e recuperou o rei Henrique na Segunda Batalha de St. Albans, mas não conseguiu ocupar Londres, e, posteriormente, retirou-se para o norte. Apesar dos reveses, a pretensão dos York não morreu com Ricardo em Wakefield, o seu filho mais velho, Eduardo, conde de March, com 18 anos, foi proclamado rei Eduardo IV por suas tropas nas Marcas de Gales – zona fronteiriça entre a Inglaterra e o País de Gales. Ele obteve uma vitória esmagadora e decisiva na Batalha de Towton – a maior e mais sangrenta batalha da história inglesa – em março de 1461 e foi oficialmente coroado rei na Abadia de Westminster em junho do mesmo ano sob aclamações e os festejos da população.

Após revoltas Lancastrians serem suprimidas em 1464 e Henrique ter sido capturado mais uma vez, Eduardo se desentendeu com seu principal aliado e conselheiro, Warwick, o Fazedor de Reis, e também alienou muitos amigos e mesmo membros da família por favorecer desmedidamente a família de sua rainha consorte, a plebéia e ex-Lancastrian Elizabeth Woodville, com quem tinha se casado em segredo em detrimento de um matrimônio estratégico com uma princesa francesa num acordo planejado por Warwick.

Warwick primeiro tentou suplantar Eduardo com o seu irmão mais novo, George, duque de Clarence – que secretamente casou-se com sua filha mais velha, Isabel Neville – e, em seguida, mudou de lado na guerra ao se aliar a Margarida de Anjou – que estava refugiada na França -, casando sua filha mais nova Anne Neville com Edward de Westminster, visando restaurar Henrique VI ao trono.

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Isso resultou em dois anos de rápidas mudanças no conflito, em que o Fazedor de Reis recolou o Lancaster no trono, mas por pouco tempo, Eduardo IV obteve vitórias completas em Barnet (abril de 1471), onde Richard Neville foi morto, e Tewkesbury (maio de 1471), onde o herdeiro da Casa de Lancaster, Edward de Westminster, foi executado após a batalha. Henrique VI foi assassinado na Torre de Londres dias depois, terminando com a linha direta de sucessão Lancastrian.

Um período de relativa paz se seguiu, mas o rei Eduardo morreu inesperadamente em 1483, porém antes nomeou em seu testamento seu irmão sobrevivente, Ricardo, Duque de Gloucester, regente como Protetor do Reino durante a menoridade de seu filho, Eduardo V. Após a sua morte, Ricardo, para impedir que os Woodville,  a impopular e ambiciosa família da viúva de Eduardo, tomassem o controle do governo, conquistou o trono para si e foi coroado como Ricardo III através do Titulus Regius aprovado pelo Parlamento, usando a suspeita legitimidade do casamento de Eduardo IV como justificativa – tornando seus sobrinhos filhos bastardos – e aprisionou Eduardo V e seu irmão, Ricardo de Shrewsbury, na Torre de Londres, que a partir de então nunca mais seriam vistos e ficariam conhecidos como os Príncipes da Torre.

Henrique Tudor, com uma pretensão ao trono muito fraca, já que era um parente distante dos Lancastrian por parte materna – sua mãe, Margaret Beaufort, era bisneta de John de Gant e trineta de Eduardo III -, porém tinha herdado a sua alegação. Contando com o apoio externo do País de Gales em revolta – ligado a Henrique pela linha paterna, a Casa Tudor – e tanto do Ducado da Bretanha de Francisco II quanto da França de Luís XI, Henrique derrotou Ricardo III, morto em batalha, e seu exército numericamente superior na Batalha de Bosworth Field, em 22 de agosto de 1485, por meio de uma traição nas linhas inimigas habilmente orquestrada pelo conde Thomas Stanley, seu padrasto, traição, derrota e morte que marcaram o fim do conflito dinástico.

Ele foi coroado Henrique VII e em janeiro de 1486 se casou com Elizabeth de York, sua prima em terceiro grau – foi necessário uma dispensa papal para o matrimônio ser realizado – e a filha mais velha e sobrevivente de Eduardo IV, unindo e reconciliando as  Casas de York e Lancaster após três décadas de conflito civil. Henrique VII combinou os estandartes das duas Casas para formar um novo, o da Dinastia Tudor, com uma rosa vermelha e uma rosa branca. 

Henry VII and Elizabeth of York

A Dinastia Tudor trouxe paz ao reino e reinou durante 120 anos. A transição para a dinastia Tudor também coincide com o fim da Idade Média e o início do Renascimento Inglês, onde se moldou a Inglaterra moderna.

Árvore genealógica da Dinastia Plantageneta, de Eduardo III e Filipa de Hainault à Elizabeth de York e Henrique VII, fundador da Dinastia Tudor.

  • Paralelos, referências e as irônicas inversões nas ”Crônicas”                                                    
 Além de haver claras referências e analogias possíveis, aparentemente, George R.R. Martin inverte o que realmente aconteceu na história real – incluindo a Guerra da Rosas – de forma irônica, ou seja, muito do que acontece nas ”Crônicas” cria um ”Espelho Invertido” do que de fato ocorreu.
  • As Dinastias Plantageneta e Targaryen e a Casa Tyrell                                                                                                          

Os Plantagenetas eram a dinastia reinante por mais de trezentos anos antes da eclosão da guerra civil, as reivindicações ao trono das Casas de York, de Lancaster, e por extensão, dos Tudor, eram derivadas dela. Haviam lendas  que diziam que os Plantagenetas tinham origens demoníacas, de que um Conde de Anjou havia se casado com Melusine após ter sido enfeitiçado por ela, um paralelo com a ligação Targaryen com os dragões, e eles também chegaram a Inglaterra vindos do outro lado do mar, atravessando o Canal Inglês no século XII.

Embora a maioria dos leitores e fãs acreditam que o protagonismo das guerras civis em ASOIAF é das Casas Stark e Lannister, a meu ver, o destaque real é a luta entre os Baratheon e os Targaryen, que retrocede no tempo não a Rebelião de Robert, mas a Guerra da Conquista, onde os Targaryen se confrontaram com o ancestral Baratheon pela linha feminina, Argilac, o Arrogante, o último Durrandon. Assim como os Lancaster e os York tinham a ancestralidade em comum, que remontava a Eduardo III,  Targaryens e Baratheons também compartilham da ancestralidade em comum, advinda de Aegon V, o Improvável, que em seu reinado agiu inversamente à Eduardo III, pois este arranjou casamentos estratégicos para seus muitos filhos, e Aegon V,  incentivado pela experiencia própria, deixou que seus filhos casassem-se por amor, como confirma Barristan Selmy.
”Todos os três filhos do quinto Aegon se casaram por amor, em desafio aos desejos do pai. E porque aquele monarca fora do comum tinha, ele mesmo, seguido seu coração quando escolheu sua rainha, permitiu que os filhos trilhassem seu caminho, fazendo amargos inimigos onde poderia ter tido bons amigos…” – A Dança dos Dragões, Barristan  III, Capítulo 67. 
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A Casa Tyrell ter a rosa dourada por símbolo alude não apenas as rosas Lancaster e York, mas também a dinastia Plantagenta em geral, cujo nome advém da flor Cytisus scoparius, conhecida como ”planta genista” em latim, que era usada como emblema heráldico pelo seu fundador,  Geoffrey de Anjou. O fato dos Tyrell usarem a rosa como símbolo e serem um das duas únicas grandes casas nobres de Westeros – ao lado dos Tully – que nunca teve reis entre seus membros, seja por linha masculina ou feminina, ao contrário dos Plantageneta, a dinastia real inglesa mais longeva da história, é uma outra inversão.
  • Aerys II e Henrique VI: os Reis Loucos      

Aerys, the Mad King                                                                          

Aerys II é o oposto cruel de Henrique VI. Henrique VI era louco, mas principalmente pelo fato de se sentir desconfortável com o exercício do poder, ele foi muitas vezes criticado por ter uma natureza delicada demais para ser um rei, ao passo que em Aerys vemos uma loucura inversa, de sede de sangue e de obsessão pela violência. A sua obsessão pelo fogo pode ser uma referência a Henrique V, o pai mais marcial de Henrique VI, com quem este foi muitas vezes desfavoravelmente comparado, que tem uma frase famosa: “a guerra sem fogo é como salsichas sem mostarda”.
  • Entre Reis e Kingmakers: de Robert Baratheon e Eduardo IV à Tywin Lannister e Richard Neville

Eduardo IV, Robert Baratheon e Robb Stark lideraram revoltas ainda muito jovens, eram populares e carismáticos e tinham relações complicadas com seus principais aliados, bem como foram comandantes que nunca foram derrotados em batalha – desconsiderem a inconclusiva Batalha de Vaufreixo por parte de Robert.

Robert Baratheon

Robert Baratheon, the Dragonslayer.

As semelhanças entre Eduardo IV e Robert são claras:  homens grandes, fortes, que lideraram exércitos para tomarem seus tronos e eram conhecidos por serem devassos e mulherengos durante seus reinados, adoravam participar de caças e beber com seus amigos e aliados, tinham dois irmãos mais novos  – na verdade três no caso de Eduardo, mas um morreu no início da guerra, e talvez possamos pensar em Eddard como um terceiro irmão de Robert-, e se tornaram gordos e inaptos em seus últimos anos, morrendo prematuramente e deixando seus reinos em crise. Mesmo a preferência pelo martelo de guerra é compartilhada por ambos.

Edward IV portrait

Eduardo IV e Robb tiveram avós, homônimos, executados por conspirarem para depor seus reis – vide a teoria das Ambições Sulistas -, viram seus pais morrerem e serem humilhados post mortem e por isso assumiram a liderança de suas Casas ainda jovens, incentivados e aconselhados por suas mães, Cecily Neville e Catelyn Stark, quebraram acordos matrimoniais estratégicos em favor de casamentos por amor, perdendo seus principais e mais fortes aliados no processo – Richard Neville no caso de Eduardo e a Casa Frey no de Robb.

Novamente, no entanto, existem inversões irônicas, principalmente em relação a seus aliados. Como Tywin Lannister, Richard Neville, o Fazedor de Reis, era o senhor mais poderoso do reino e foi crucial para garantir a subida de Eduardo IV ao trono. Tywin é famoso pelo Saque de Porto Real e sua crueldade absoluta, Warwick, em contrapartida, ganhou o apoio popular por suas exortações para “poupar o povo comum” nas batalhas, incluindo em uma quebra crucial de um cerco – que foi garantida por uma traição dentro das fileiras Lancastrian -.

Tywin trai Aerys II, em parte, por causa da recusa de um acordo matrimonial entre Cersei e Rhaegar em favor de uma aliança com Dorne – ao contrário do que ocorreu com Eduardo em relação ao acordo com a França – , e Robert assegura sua aliança com os Lannisters e a estabilidade do reino por meio de seu casamento com Cersei, no qual os dois compartilham um ódio mútuo. Por outro lado, Warwick havia apoiado os York e Eduardo desde o início da guera, mas posteriormente os traí, em parte porque Eduardo se casa com um plebeia por amor contra os interesses políticos expressos de Warwick.

Robb, como Eduardo, rompe um contrato de casamento que lhe garantiria uma vantajosa aliança e se casa por amor, porém, Eduardo não perdeu seu reino nem sua vida por causa disso, ele é destronado provisoriamente por Warwick – que como os Frey, troca de lado e traí em meio a guerra – mas depois recupera o poder. Robb pagou o preço por seus erros, Eduardo não, pelo menos não em vida, o que constitui em outra inversão.

Richard Neville

Richard Neville, o Fazedor de Reis.

Tanto Tywin, nos Sete Reinos do terceiro século após a Conquista, quanto Richard Neville, na Inglaterra da segunda metade do século XV, são os verdadeiros poderes por trás dos tronos, os Kingmakers, uma posição também compartilhada por Mace Tyrell. Warwick, como o lorde com o maior potencial militar, o nobre mais rico e poderoso de sua época, tem suas características preenchidas pelos dois, Tywin e Mace. O primeiro foi Mão do Rei de três monarcas, pôs no Trono de Ferro quatro, participou decisivamente de três guerras – da Rebelião Reyne-Tarbeck à Guerra dos Cinco Reis – e era o lorde do território mais rico de Westeros. Mace foi Mão de dois reis – Renly e Tommen, no caso deste ainda é -, e o senhor da região mais populosa, produtiva e com maior potencial militar dos Sete Reinos.

É digno de nota dizer que os três seguiram a mesma forte política de arranjo de casamentos estratégicos para seus filhos. Warwick tinha duas filhas, Isabel e Anne Neville, e desde a ascensão de Eduardo IV ao trono planejava casa-las com os irmãos do rei: George, duque de Clarence, e Ricardo, duque de Gloucester.

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O primeiro casamento, entre George e Isabel, acabou ocorrendo secretamente em Calais, pouco antes do início da revolta de Warwick e George contra Eduardo em 1469. No ano seguinte, após o fracasso dessa primeira revolta, Anne se casou com Edward de Westminster como parte de uma aliança entre seu pai e Margarida de Anjou. No ano seguinte às derrotas e mortes de Warwick em Barnet e de Edward de Westminster em Tewkesbury, Anne finalmente casou-se com Ricardo de Gloucester, o futuro Ricardo III.

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Essa política de matrimônios estratégicos também é seguida à risca por Tywin e Mace, o primeiro planejava casar  seu filho Jaime Lannister, antes deste entrar para a Guarda Real, com a segunda filha de Hoster Tully, Lysa, e tentou casar Cersei com o herdeiro de Aerys II, Rhaegar, e depois da Rebelião de Robert obteve o casamento real entre este e sua filha, e para o seu filho mais novo, Tyrion, arranjou um casamento com a herdeira de Winterfell, Sansa Stark. Mace Tyrell é muito lembrado por ter arranjado três casamentos estratégicos para sua única filha, Margaery, primeiro com Renly, logo após com Joffrey e por fim com Tommen.

  • As ”Rainhas Más”: Cersei Lannister, Margarida de Anjou e Elizabeth Woodville 

Elizabeth Woodville era a Rainha consorte – a primeira a ter tido um cerimônia de coroação – de Eduardo e usou de sua posição para ganhar e acumular um poder excessivo para si e sua família, assim como Cersei faz. No entanto, Eduardo IV se casa com Elizabeth por amor, desperdiçando oportunidades de estabelecer alianças; Robert casa-se com Cersei por uma aliança, sabendo que ali nunca haveria amor. Elizabeth era de uma família de plebeus, enquanto Cersei é da mais poderosa Casa não monarca dos Sete Reinos. Tanto Elizabeth quanto Cersei tem seus filhos – herdeiros do trono – acusados de serem ilegítimos, no caso de Elizabeth provavelmente não era verdade, mas a mentira prevaleceu, no caso de Cersei certamente era verdade, mas a mentira mais uma vez prevaleceu.

Como Cersei, Elizabeth era extremamente sedutora, com gelados olhos azuis e longos cabelos dourados. Cersei é retratada nos livros como uma das mais lindas mulheres de todos os Sete Reinos, Elizabeth Woodville era descrita por contemporâneos como “a mais bela mulher na ilha da Grã-Bretanha”.

Elizabeth Woodville, Queen Consort of Edward IV of England.

Cersei vai a extremos para proteger a ascensão de seus filhos, em paralelo a Margarida de Anjou, cujo filho, Edward de Westminster, foi também acusado de ser ilegítimo, mas enquanto a última foi a esposa do rei Lancastrian Henrique VI e liderou seus exércitos na guerra; Cersei é a esposa de Robert – Baratheon em paralelo aos York – e prefere usar a manipulação e as promessas de favores sexuais para conseguir o que quer.

O filho de Margarida, também chamado de Edward de Lancaster, se assemelha claramente ao primogênito de Cersei, Joffrey Baratheon. Edward de Westminster era um jovem sádico e obcecado por decapitações e que, como Joffrey, rejeitou os pedidos de misericórdia de prisioneiros que foram executados. Edward também enfrentou boatos questionando sua legitimidade. Mais uma vez, no entanto, a ironia: Joffrey era o herdeiro Baratheon – York -, enquanto Eduardo era o herdeiro Lancaster.

  • Protetores do Reino: Eddard Stark e Ricardo, duque de Gloucester
Ricardo tornou-se o mais importante aliado de Eduardo após a traição de Warwick e foi nomeado Protetor do Reino em seu leito de morte. Depois, porém, em meio a intrigas e conspirações por toda a parte, para impedir que a impopular e sedenta família da rainha viúva, os Woodville, tomasse o poder, ele ocupou o trono dos herdeiros de Eduardo e justificou o seu reinado com base em declarações sobre a ilegitimidade do casamento de Eduardo e Elizabeth e consequentemente de seus sobrinhos. Ricardo é  apontado pela historiografia tradicional como tendo sido o assassino indireto dos Príncipes da Torre, ato que supostamente cometeu para consolidar o seu reinado. Ned Stark, ao contrário, encontrou evidências claras e convincentes da ilegitimidade dos herdeiros de Robert, mas as suas tentativas de negociar com Cersei antes de torná-las públicas garantiram a segurança das crianças ”Baratheon” e Eddard, ao ser nomeado Protetor do Reino por Robert em seu leito de morte, não age para tomar o controle delas, e paga o preço por isso, inversamente ao que se passou com Ricardo III, a curto prazo.
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Pintura do séc. XVI retratando o último Plantageneta.

  • Entre Dragões, Bastardos, Beauforts e Blackfyres:  A Ascensão de Jovem Griff

Apesar de Henrique VII ser conhecido por ter criado um novo estandarte para sua Casa unindo as rosas de Lancaster e de York, seu brasão de armas pessoal – que, inclusive, ele usou na Batalha de Bosworth Field – ostentava o Welsh Dragon devido as suas ligações com o País de Gales pela linha paterna, a família Tudor de Penmynydd. Além disso, por motivos políticos, ele se apresentava aos galeses como o cumprimento da profecia do Mab Darogan – o Filho Destinado ou Profetizado, o Filho do Destino -, uma figura messiânica da mitologia galesa que expulsaria os ingleses para fora da Grã-Bretanha e a recuperaria para os seus habitantes originais, os celtas. 

The Welsh Dragon

Henrique Tudor, como já dito anteriormente, tinha uma pretensão ao trono muito fraca, e além disso, descendia de bastardos pela linha materna. Muitos fãs e leitores de ASOIAF e de GOT teorizam sobre quem irá ficar no Trono de Ferro no fim da história, e há um grupo entre estes especuladores que baseando-se em referências, analogias e paralelos com a história real afirmam que será Daenerys, ou mesmo Jon Snow.

Brasão de Armas de Henrique VII.

Brasão de Armas de Henrique VII.

Martin já negou veementemente inúmeras vezes que seguirá um roteiro igual ou similar ao da Guerra das Rosas ou de qualquer outro período ou acontecimento histórico real, ele diz que usa a história de modo vago, que mistura e combina aspectos e elementos díspares, de vários eventos, personagens e fatos históricos, que não existe uma correspondência exata entre fatos, acontecimentos e personagens históricos reais e de seu universo fantástico.

Não obstante, o que há na história de seu mundo são inúmeras referências, inversões – como provei ou tentei provar, ao menos – e analogias possíveis. Hipoteticamente, como forma de continuar especulando, usando o caso da fraca porém bem sucedida pretensão de Henrique VII como destaque e exemplo, podemos constatar que nem Daenerys tampouco Jon Snow – que nunca se importou ou teve interesse pela guerra pelo trono, pretensões e etc – mas o recém-revelado Jovem Griff, como um Blackfyre – apoio essa teoria -, é um candidato provável a ocupar o Trono de Ferro no fim.

Vamos supor que o Jovem Griff é realmente um Blackfyre por descendência feminina. Ele é o filho de Illyrio Mopatis, Magíster de Pentos, e sua segunda e falecida esposa, a lisena Serra, que tinha fama de ter características Targaryen, incluindo cabelos dourados  com listras de prata. Assim, quando a linha masculina Blackfyre morreu com Maelys, o Monstruoso na Guerra dos Reis de Nove Moedas, somente a linha feminina permaneceu. Destarte, a ascendência de Jovem Griff  partilha traços semelhantes a de Henrique Tudor.

O Jovem Henrique VII, por um artista francês anônimo (Musée Calvet , Avignon).

O Jovem Henrique VII, por um artista francês anônimo (Musée Calvet , Avignon).

A pretensão deste ao trono não apenas era derivada de sua mãe, mas também através de nascimentos ilegítimos posteriormente legitimados. Seu antepassado era John de Gant, o terceiro filho de Eduardo III. John de Gant teve quatro filhos com sua amante Katherine Swynford antes de se casarem, tornando-os tecnicamente ilegítimos. Ricardo II, sobrinho de  John de Gant, os legitimou. No entanto, quando o filho de John de Gant com sua primeira esposa, Henrique IV, subiu ao trono, ele defendeu a legitimidade de seus meio-irmãos, mas os excluiu da linha de sucessão por decreto.

A pretensão de Henrique Tudor vinha de sua mãe, Margaret Beaufort, que era neta de John Beaufort, um dos filhos de John de Gant e Katherine Swynford. Portanto, em termos de reivindicações, vemos circunstâncias semelhantes entre Henrique Tudor e  Jovem Griff. Ambas advém de bastardos legitimados, que foram excluídos da sucessão – pelo fracasso da Primeira Rebelião Blackfyre no caso do segundo, e por decreto real no caso do primeiro – e ambos derivam sua reivindicação de suas mães.

Mais antigo retrato de Margaret Beaufort, mãe de Henrique Tudor.

No entanto, há mais semelhanças, e elas também chegam aos seus oponentes – ou prováveis oponentes, no caso do Jovem Griff. Muitos apontam as similaridades entre Ricardo III e Stannis Baratheon – um tema deveras interessante que irei tratar com mais profundidade no futuro. Ambos são extremamente fiéis e leais às suas famílias e à seus irmãos mais velhos, ambos matam seus outros irmãos que os traíram – George, duque de Clarence e Renly, de acordo com a historiografia tradicional, no caso de Ricardo – e após a morte de seus reis, eles alegam publicamente a ilegitimidade de seus sobrinhos. Ambos são sábios legisladores, governantes justos e cumpridores de seus deveres – o lema pessoal de Ricardo era ”Loyaulté me lie, Loyalty binds me.”

Quando Henrique Tudor passou a reivindicar o trono da Inglaterra, muito de seu sucesso devia-se ao fato de não haver mais candidatos Lancastrian masculinos. Em cima disso, a  família de sua mãe, a Casa de Beaufort, tinha recentemente sido extinta na linha masculina no campo de batalha, deixando assim nenhum outro Beaufort masculino descendente de John de Gant e Eduardo III além de Henrique.

Moeda do reinado de Henrique VII.

Mas enquanto Henrique VII não foi moldado para governar, sua vida antes de reinar foi a de um refugiado e fugitivo, e foi auxiliado em seu governo por sua mãe, sua esposa e conselheiros, Jovem Griff teve a educação de um príncipe, foi moldado para reinar, como Varys descreve a Kevan:

”Aegon tem sido moldado para governar desde antes que pudesse andar. Foi treinado em armas, como convém a um cavaleiro, Mas esse não foi o fim de sua educação. Ele lê e escreve, fala diversas línguas, estudou história, leis e poesia. Uma septã o instruiu nos mistérios da Fé desde que teve idade suficiente para entendê-los. Viveu com pescadores, trabalhou com as próprias mãos, nadou em rios, remendou redes e aprendeu a lavar as próprias roupas na necessidade. Ele consegue pescar, cozinhar e curar uma ferida, sabe como é sentir fome, ser caçado, sentir medo. Tommen tem sido ensinado que a realeza é o direito dele. Aegon sabe que a realeza é seu dever, que um rei deve colocar seu povo em primeiro lugar, e viver e governar para eles. ” – A Dança dos Dragões, Epílogo.

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Martin afirmou que vários pretendentes ocuparão o trono antes do fim, certamente Jovem Griff será um deles, como um Blackfyre sem ter consciência da verdadeira identidade e sendo apresentado a todos os Sete Reinos como o filho herdeiro de Rhaegar, provavelmente ele conquistará as graças do povo e ganhará apoio da maior parte dos lordes de Westeros, tanto de Dorne dos Martell, ligada ao pretendente pela crença dele ser o filho de Elia, quanto da Campina dos Tyrell, que com a morte de Kevan e a possibilidade de Cersei vencer seu julgamento terão que se virar para ele em sua busca por poder. E é daí que surgem Arianne e Margaery como opções de um casamento político, exercendo o mesmo papel que Elizabeth de York na história britânica.

Elizabeth of York

Porém, há mais um fator decisivo nesse enredo, que pode definir os rumos da luta pelo trono: a Fé dos Sete reerguida ao poder pelo popular novo Alto Septão, que conseguiu restabelecer as famosas ordens da estrela e da espada antes extintas por Maegor. No quarto livro, em um diálogo com Cersei, ele mostra que a Fé terá um papel extremamente importante no futuro, citando a Guerra da Conquista e a coroação de Aegon I:

”Há trezentos anos, quando Aegon, o Dragão, desembarcou no sopé desta mesma colina, o Alto Septão trancou-se no interior do Septo Estrelado de Vilavelha e rezou durante sete dias e sete noites, sem ingerir nada além de pão e água. Quando saiu, anunciou que a Fé não se oporia a Aegon e às irmãs, pois a Velha erguera a sua lanterna e lhe mostrara o caminho adiante. Se Vilavelha pegasse em armas contra o Dragão, Vilavelha arderia, e Torralta, Cidadela e o Septo Estrelado seriam derrubados e destruídos. Lorde Hightower era um homem devoto. Quando ouviu a profecia, manteve as suas forças em casa e abriu os portões da cidade a Aegon quando ele chegou. E Sua Alta Santidade ungiu o Conquistador com os sete óleos. ” – O Festim dos Corvos, Cersei VI.

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Henrique VII sendo coroado por Lorde Thomas Stanley após a Batalha de Bosworth Field.

Devido a tendência da saga em seguir um padrão cíclico da história – ”a história é uma roda, pois a natureza do homem é fundamentalmente imutável. O que aconteceu antes irá forçosamente voltar a acontecer” - é provável que o Alto Pardal se decida por coroar Jovem Griff em pleno Septo de Baelor, ele é novo Aegon, Aegon VI, e a Fé exercendo um papel importante na trama era algo que devíamos esperar, sendo análoga a Igreja Católica, que sempre coroava e destronava reis no período medieval, mas não atuando decisivamente desde o fim da Revolta da Fé Militante, ela finalmente ressurge ao palco do jogo sob uma liderança forte, enérgica e reformista, se colocando acima da autoridade do Trono de Ferro – que parou de cumprir a promessa de Jaehaerys I de a defender -, e não como subordinada. Também creio ser possível que o Alto Pardal convoque uma ”Cruzada” contra o Norte se Stannis vier a vencer a batalha contra os Boltons, o que seria bem interessante.

Assim como o Jovem Griff, Henrique Tudor viveu grande parte de sua vida do outro lado do Mar Estreito… ou melhor, no caso deste, do Canal Inglês, em exílio, no caso do Jovem Griff em Essos, nas Cidades Livres, entre exilados e descendente de exilados westerosi e líderes e soldados de companhias mercenárias, no de Henrique na Bretanha e na França, onde ele conseguiu suprimentos, mercenários franceses e soldados Lancastrian leais e atravessou o canal para tentar uma invasão rápida, como recentemente o Jovem Griff fez com o apoio da célebre Companhia Dourada, desembarcando no Sul de Westeros. E ambos contam com aliados  e conselheiros proeminentes, ambos refugiados, que os criaram como filhos no exílio: o ex-Mão do Rei  Jon Connington no caso do Blackfyre, e Jasper Tudor, duque de Bedford, no caso de Henrique.

Richard III vs. Henry Tudor at Bosworth Field

Vitral retratando os líderes da Batalha de Bosworth Field, Ricardo III  à esquerda e Henrique VII à direita.

Alguns dos detalhes mais importantes:

  • Ambos, Jovem Griff e Henrique Tudor, têm pretensões ao trono derivadas de sua mães e de bastardos legitimados.
  • Ambos viveram no exílio do outro lado de mares estreitos e reuniram suprimentos e tropas de legalistas necessários para uma invasão.
  • Tem por principais aliados e conselheiros refugiados e exilados que os criaram como filhos, Jon Connington do lado do Jovem Griff, e Jasper Tudor do lado do futuro Henrique VII.
  • Casa de Beaufort = Casa Blackfyre, ambos os nomes soam foneticamente semelhantes e ambas as Casas são historicamente similares.
  • Entre seus opositores se incluem Stannis Barathon/Ricardo III.      

Diante de tudo isso, é bastante provável que nas páginas do sexto livro veremos a causa do protegido de Varys e Illyrio – a semelhança de Henrique VII, protegido de Margaret Beaufort e Thomas Stanley – triunfar, a pergunta a ser feita é se esse triunfo, com de Dorne, da Campina e principalmente da Fé, será duradouro, como o do primeiro rei Tudor, ou apenas temporário.                                                                                        

  • Muito Além da Guerra das Rosas e da História Medieval Inglesa
Assim como em ”As Crônicas” há vida Para lá do Mar Estreito ou Para Lá da Muralha, em relação a referências e analogias históricas em ASOIAF, há vida para além da Guerra das Rosas e da história medieval inglesa, e britânica, por extensão, e vida com abundância nos três casos. Este blog procurará estabelecer paralelos, analogias e buscar as possíveis inspirações históricas de George R.R. Martin para a criação da história de seu universo fantástico.
Veremos e analisaremos aspectos e elementos de civilizações e personagens da Antiguidade, talassocracias e cidades-estados da Baixa Idade Média e do Renascimento, companhias mercenárias da Itália medieval, religiões predominantes ou ascendentes na antiga Pérsia, no Império Romano e na Europa Medieval, as interações e contatos entre a Ásia e a Europa desde a Antiguidade até o início da Era Moderna, entre outras coisas.

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